Cinema

"Green book" não é o pior Oscar do ano, há outro mais constrangedor

"Green book" não é o pior Oscar do ano, há outro mais constrangedor

"Skin", filme israelita que venceu em curta-metragem, há de ficar na história. Mas por todas as más razões.

A vitória de "Green book" como melhor filme do ano nos Oscars afligiu muito mais gente do que só Spike Lee. A reação do notório autor de "BlackKklansman", que quis abandonar a cerimónia assim que se anunciou o prémio (mas foi travado pelo staff da Academia e obrigado a voltar ao lugar) é só a ponta de um sombrio iceberg que a comunidade afro-americana viu com desgosto - e mesmo aversão.

A causa é simples e tangível: "Green book", que é uma espécie de "Driving miss Daisy" (1990) invertido para o século XXI, conta a história da improvável amizade entre o músico negro Don Shirley (Mahershala Ali) e o seu motorista branco Tony Lip (Viggo Mortensen) na América sulina e rácica dos anos 60. Superficialmente correto, o filme tem um problema de perspetiva: o realizador Peter Farrelly escolheu um ponto de vista simplista, caucasóide e inquinado, exalando até um certo snobismo na ótica supostamente bondosa que imprime à sua análise do racismo.

Por alguma razão, a família de Don Shirley não se reviu na produção e rejeitou dar o aval à obra. Também não será por acaso que "Green book" é, de entre todos os vencedores do Oscar de melhor filme desde 2006 (o triste ano em que venceu o pobríssimo "Crash"), aquele que tem mais a baixa classificação dos críticos no site referencial Rotten Tomatoes: 79% de média acumulada (o "Crash" de Paul Haggis ainda franqueia pior registo: 74%). Do lado oposto estão "Moonlight" (melhor filme de 2016, 98% de aprovação) e "A forma da água", o vencedor de 2017, com 92%, ou o melhor filme estrangeiro deste ano, "Roma", com 96%.


"Skin" é um filme sonso e patranheiro


Flácido, manso e sem verdadeira coragem para sair da zona de conforto que lhe engrossa as bilheteiras, "Green book" não é, no entanto, o caso mais torto dos Oscars deste ano. Há um bastante pior, sobretudo pela carga demagógica que impõe ao espectador e a forma como o quer manipular com as suas verdades patranheiras que eclodem em sonsice. Esse filme chama-se "Skin" e venceu o Oscar de melhor curta-metragem de imagem real.

Realizado pelo israelita Guy Nattiv, "Skin", com 20 minutos de duração, foi o mais votado entre os 7.258 membros da Academia do Oscar e conta-nos uma história de racismo. No elenco encontramos dois atores conhecidos, que perfazem um casal: Jonathan Tucker, estimável intérprete da série sci-fi "Westworld" e do filme de Sofia Coppola "Virgens suicidas", e Danielle Macdonald, a estrela australiana de "Patti Cake$" e "Miss XL".

A exposição das personagens e da tese que elas levantam dispõe-nos perante um quadro claro: uma família norte-americana de supremacistas brancos, tatuados, amantes de armas e claramente broncos. Numa das primeiras cenas vemos logo que educação estão a infligir às crianças, que são ensinadas a disparar antes de serem ensinadas a ler.

Lançados os habitantes da história, lança-se a tese: as crianças vão sofrer pelos erros dos seus pais. Uma cena dá-nos espelho dessa inquietação: está a família supremacista às compras num supermercado quando um negro de passagem resolve sorrir a uma das crianças. Percebemos logo que ele vai levar por tabela - e a seguir, claro, já está a ser pontapeado e socado num parque de estacionamento, com a sua mulher e os filhos dentro do carro, aterrorizados, a ver.

A cena subsequente não é a antítese, é o desdobramento da tese, num proscénio de vingança: o negro espancado junta-se a outros negros muito grandes e muito fortes e juntos vão raptar o supremacista e exercer a sua retaliação. A solução que encontram é imaginativa (sim, o que se segue é um spoiler...): esse supremacista branco e bronco não será espancado nem ameaçado, vai só sair dali tatuado dos pés à cabeça, parecendo que agora é, literalmente, um homem negro.

Fast food a todo o vapor
A próxima cena (sim, tudo corre de forma rápida, muito desembaraçada, não há cá tempo para ruminações ou ambiguidades, e a construção do filme assemelha-se a uma linha de fabrico de fast food, com cenas pré-embaladas e prontas a atirar ao micro-ondas ou ao ecrã): o homem branco, que agora parece preto, é abandonado numa rua de noite e de noite regressa a casa embrulhado em escuridão.

Nem é preciso dizerem-nos o que vem a seguir, porque o que se segue adivinha-se de caras: o homem vai chegar a casa, não vai ser reconhecido, e será a sua família, tomando-o pela ameaça negra, a matá-lo - no caso concreto, será mesmo o seu filho menor, a quem ele ensinou antes a disparar e a não respeitar os outros nem as suas diferenças, a empunhar a arma e a chispar o chumbo. E o filme chegou ao fim.

Manipulador, desonesto, profundamente maniqueísta, cariogénico em todo o seu ser, "Skin" é como uma ulceração no espetador: chaga, mortifica e aflige profundamente. Não porque a sua tese seja incomodativa, apenas porque é um produto pérfido, mau e sem absolvição.

Em suma: "Skin", um filme capaz de provocar em muito bom cinéfilo vergonha alheia por ter sido medalhado com um Oscar, é autêntico pus cinematográfico. Devemos, como nos casos em que lidamos com uma infeção, fugir dele evidentemente a sete pés.