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Há efemérides que vêm por bem. A de Orwell é uma delas

Há efemérides que vêm por bem. A de Orwell é uma delas

Será 2021 o ano de George Orwell? A avaliar pela profusão de reedições de títulos do celebrado autor inglês, mas também pela degradação crescente do ambiente político e social que os seus livros deixam entrever, é muito provável que sim.

O que pode fazer uma simples data em prol da reabilitação de uma obra - bastou que se cumprissem 70 anos sobre a morte de George Orwell (1903-1950) para que o interesse editorial em torno dos seus livros conhecesse um repentino surto.

Inesperado talvez não, porque os contornos que a sociedade tem vindo a assumir - com um recurso crescente à tecnologia para controlar todos os movimentos dos contribuintes, perdão, cidadãos - há muito que fizeram com que os seus livros continuassem a chegar a novos públicos.

Exemplo maior desse interesse é "1984", a novela distópica cuja figura invisível e omnipresente serviu de título a alienantes subprodutos televisivos que ainda hoje derramam uma viscosidade sem paralelo.

Até final do ano passado, a única edição a circular em Portugal era a da Antígona e constituía um verdadeiro abono de família da editora dirigida por Luís Oliveira, tal a sucessão de reimpressões a que tinha direito.

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Valha a verdade que, em março de 2020, uma edição com a chancela da Clube do Autor chegou às livrarias, mas seria alvo de uma providência editorial imediata e o reconhecimento público por parte desta editora de que se tratou de um erro (embora se tenham cumprido em 2020 os 70 anos sobre a morte do escritor, a lei determina que os direitos em vigor apenas cessem apenas no fim desse ano).

Tanto bastou para que a Antígona zurzisse essa edição, em particular o facto de o pivô José Rodrigues dos Santos ter sido o escolhido para prefaciar essa edição. "Sem dúvida que os apedeutas do Clube do Autor acertaram em cheio ao escolherem um encantador de nabos para lançarem uma operação de marketing de largo alcance, nunca vista no meio editorial português", escreveu na altura o editor.

No final do ano passado, uma nova edição de "1984" chegou às livrarias, mas nesse caso sem que tivesse sido atropelada qualquer lei. Aprovada pelos familiares de Orwell, a novela gráfica tinha a assinatura do ilustrador brasileiro Fido Nesti e procurava captar a sufocante atmosfera original da imortal obra.

"Durante o trabalho vi-me envolto em várias distopias, como o próprio '1984', a pandemia e o novo governo brasileiro. Descobri que existe muita gente que não acredita na Ciência, não acredita em vacinas e, por incrível que pareça, ainda acredita que a Terra é plana. Gostaria de acreditar que na verdade eles pensam de formadiferente e estão apenas praticando o 'duplipensamento'", afirmou Nesti ao "Jornal de Notícias", numa entrevista exclusiva para Portugal.

Como se esperava, a verdadeira vaga de edições surgiu já em janeiro. Foram variadíssimas as editoras que fizeram chegar ao mercado novas edições de "1984" (D. Quixote, Porto Editora, Clube do Autor, Livros do Brasil e Relógio D'Água) e "Animal farm" (no original). Esta última, curiosamente, com duas opções de títulos bem diferentes. Se houve quem tenha respeitado a opção histórica de "O triunfo dos porcos", casos da Bertrand, Clássica Editora e Relógio D'Água, a opção literal de "A quinta dos animais" mereceu a preferência da Antígona e da Livros do Brasil.

Por muito importantes que sejam as novas edições na renovação de leitores, o grande destaque editorial relacionado com Orwell foi mesmo a compilação de ensaios que a chancela Edições 70 publicou no mês inaugural do ano.

As diferentes facetas ensaísticas do autor nascido na Índia britânica estão representadas num livro cuja responsável da tradução e organização do livro foi Jacinta Maria Matos, professora universitária que há dois anos pubicou um livro sobre George Orwell com o título de ""Biografia intelectual de um guerrilheiro indesejado".

"Orwell lutou sempre contra a passividade, a aceitação do dogma e a subserviência perante a ortodoxia", resume a biógrafa.

Na primeira secção do livro é possível encontrar cinco textos de caráter político em que aborda temas como o anti-semitismo na Grã-Bretanha do seu tempo, o nacionalismo, a autonomia artística e a liberdade de criação.


Mais pessoais são os restantes segmentos. No segundo, dedicado ao imperialismo, apresenta os ensaios "Um enforcamento" e "Matar um elefante" (sobre a sua experiência como jovem polícia imperial)", enquanto a temática central da terceira parte do livro consiste nas suas impressões sobre autores como Charles Dickens, Rudyard Kipling ou Arthur Koestler.

Este não é, todavia, o único ensaio orwelliano que foi lançado em janeiro. A Principis lançou em formato de e-boook e a um preço invulgarmente atrativo (dois euros e meio), "Dentro da baleia e outros ensaios", um conjunto de textos dos quais sobressai um em particular em que "a história bíblica de Jonas e a baleia é usada como uma metáfora para aceitar a experiência sem procurar mudá-la".

Esgotada há anos encontra-se uma edição valiosa da Antígona, intitulada "Por que escrevo e outros ensaios", na qual o escritor e jornalista recorda os difíceis anos de juventude e a esperança inamovível de transformar o mundo através da escrita.

Mas antes de George Orwell há Eric Arthur Blair, o homem. O mais completo dos documentários sobre o escritor tem a assinatura da BBC Four e está disponibilizado na íntegra no Youtube.

São quase 90 minutos que compõem este soberbo retrato comentado pelo próprio, que a si mesmo se define como alguém que, acima de tudo, gostava de "cerveja inglesa, vinho tinto francês, vinho branco espanhol e chá indiano". Considerando que todos os escritores "são vaidosos, egoístas e preguiçosos", encarava cada livro como "uma luta horrível e cansativa" em tudo semelhante "a uma doença".

O caráter combativo da sua personalidade encontra-se bem evidente nesta série de entrevistas, durante as quais não hesita em apelidar os pacifistas de "pró-fascistas". "Quem não está comigo, está contra mim", sentencia.

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