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Há uma coprodução portuguesa na seleção de Cannes 2020

Há uma coprodução portuguesa na seleção de Cannes 2020

Foi com um simples "o cinema está vivo" que Thierry Frémaux, responsável há muito pela direção artística do festival, anunciou os 56 filmes que levam a chancela Seleção Oficial Cannes 2020, apesar deste não se realizar. E entre eles há uma coprodução portuguesa, "In the Dusk", do lituano Sharunas Bartas, que já filmou entre nós, nomeadamente "A Casa", também com passagem por Cannes.

A história deste filme decorre na Lituânia, em 1948. A guerra acabou, mas o país ficou em ruínas. Untė, de 19 anos, é membro do movimento que resiste à ocupação soviética. A luta é desigual, mas determinará o futuro de toda a população. Num momento de viragem também da sua vida, Untė descobre a violência e a traição...

Ao JN, João Matos, da Terratreme, que coproduziu o filme, afirmou: "A presença do filme do Sharunas Bartas, que tivemos o prazer de coproduzir, deixa-nos muito felizes num contexto de cinema mundial que precisa reencontrar a sua normalidade. E afirma a presença portuguesa numa seleçao que deverá marcar futuros festivais que se venham a realizar num futuro próximo, bem como o regresso do público e dos filmes às salas de cinema que pela Europa começam agora a reabrir."

Apesar de tudo, nenhum realizador português sucede ainda a Pedro Costa, o último candidato à Palma de Ouro, no já longínquo 2006, quando apresentou em Cannes "Juventude em Marcha". Os 56 filmes anunciados correspondem mais ou menos ao número habitual de títulos na competição, na seção Un Certain Regard e nas sessões especiais e da meia-noite, apresentados desta forma sem qualquer distinção entre si.

No entanto, a lista corresponde, apenas, aos produtores e realizadores que aceitaram esta espécie de carimbo. Outros houve que a recusaram, o que lhes permite saltar para um outro festival, como Veneza, estrear apenas no próximo ano, como o tão esperado "Benedetta", de Paul Verhoeven, ou simplesmente não solicitar este endosso. Como bem frisou Frémaux, estes filmes podem participar em outros festivais, como Toronto ou San Sebastian, mas sem ser a concurso.

Na lista de selecionados, não consta por exemplo o novo filme de Nanni Moretti, "Tre Piani", que Thierry Frémaux indicara já como certo em Cannes, numa altura em que ainda se pensava poder vir a realizar o festival.

Dos 56 filmes indicados, escolhidos de uma lista de submissões que pela primeira vez ultrapassou as duas mil longas-metragens, há 16 filmes realizados por mulheres, mais dois que o ano passado e mais cinco que em 2018. E a lista começa pelos "fiéis", aqueles que já participaram pelo menos uma vez em Cannes, como Sharunas Bartas, tendo à cabeça o que seria o filme de abrtura do festival, o novo Wes Anderson, "The French Dispatch".

Nessa lista de "habitués" da Croisette encontramos depois os franceses François Ozon e Maiwenn, o dinamarquês Thomas Vinterberg, o norte-americano Jonathan Nossiter, o belga Lucas Belvaux, os coreanos Im Sang-soo e Yeong Sang-ho, os japoneses Naomi Kawase e Koji Fukada, o espanhol Fernando Trueba e o britânico Steve McQueen, logo com dois filmes, "Lovers Rock" e "Mangrove", aliás episódios da série da BBC "Small Axe", sobre a comunidade indiana de Londres, entre 1969 e 1982.

Nos novatos em Cannes, além de mais uma forte delegação francesa, há a salientar filmes de proveniência tão diversa como o Líbano, Egito, Suécia, Bulgária, Alemanha - "Enfant Terrible", sobre a vida de Rainer Werner Fassbinder -, Canadá ou Israel, enquanto nas primeiras obras, que seriam candidatas à Caméra d"Or, dos quinze títulos selecionados, se destacam "Falling", estreia na realização de Viggo Mortensen, e o brasileiro "Casa de Antiguidades", de João Paulo Miranda Maria - Thierry Frémaux não esqueceu a situação do Brasil na sua breve apresentação do filme.

Cinco comédias, todas francesas, nunciadas à parte por não ser um género muito habitual em Cannes, três documentários e quatro animações, entre as quais "Earwig and the Witch", de Goró Miyazaki, filho de Hazao Miyazaki e também produzido pelos Estúdios Ghibli, e"Soul", da Pixar, presença também habitual na Croisette.

Este ano não há passadeira vermelha. O responsável pela programação do festival salientou que nos momentos mais difíceis do confinamento o Palácio dos Festivais de Cannes abriu as suas portas para os sem-abrigo da cidade. Mas o cinema continua e todos estes filmes vão estrear nas salas de cinema, a partir já do meio do mês, quando as salas reabrirem também em França, e até ao fim do ano. Com a chancela, para muitos deles importante para as suas carreiras, da Seleção Oficial de Cannes 2020.