Arte do Dia

Haverá festivais neste "novo anormal"?

Haverá festivais neste "novo anormal"?

Quem faz dos festivais uma espécie de religião do bem sabe que não é possível imaginar um mundo novo sem eles.

A edição deste ano do Glastonbury não vai acontecer. "Tentámos mover o céu e terra, mas ficou claro que simplesmente não poderemos fazer o festival acontecer este ano", declarou a organização sobre o quinquagenário evento, que tem capacidade para acolher 210 mil pessoas - número impraticável em pleno período pandémico. Os bilhetes de 2020, que tinham transitado para 2021, passam agora para 2022. O Reino Unido organiza mais de 900 festivais por ano e a maioria está em risco de desaparecer. Se o Governo britânico não apoiar os festivais, alertou a Associação de Festivais Independentes, a muitos só restará a ruína.

Não é uma boa notícia. É, aliás, uma péssima notícia. Quem faz dos festivais uma espécie de religião do bem sabe que não é possível imaginar um mundo novo sem eles. A possibilidade de voltar a não haver, também em Portugal, festivais de verão, trouxe-nos à memória aquele fim de tarde, no último Primavera Sound do Porto, em que Adrianne Lenker nos devolveu o chão.

A folker de Indianapolis que dá voz aos Big Thief tem um disco a solo quase invisível, "Songs/instrumentals", que saiu há dois meses. Lenker canta sobre solidão, perda, memória, arrependimento e todas as violências que se escondem sob a superfície do normal. O single "Anything", aquela voz pequenina e despretensiosa, parece escrito para este tempo pandémico de "novo anormal". Ela canta: "Eu não quero falar sobre nada / Eu não quero falar sobre ninguém". E depois: "Eu quero beijar, beijar de novo os teus olhos / Quero ver os teus olhos a olhar". E conclui: "Quero dormir no teu carro enquanto tu conduzes / Deitar no teu colo quando eu estou a chorar". É tão simples e tão certeira que é quase chocante.

Com a morte do último grande bastião da BD do eixo franco-belga - já não tínhamos Uderzo, Goscinny, Hergé, Franquin -, hoje é dia de lermos Jean Graton. O gigante escritor e desenhador francês morreu esta quinta-feira aos 97 anos e nada melhor do que recordá-lo na sua imortal criação: o mítico piloto de automóveis Michel Vaillant, que lemos por cá desde a década de 1970. Aconselha-se uma das aventuras passadas em Portugal, em que Vaillant cruza de norte a sul o nosso país-postal: "Rali em Portugal" ("5 filles dans la course"). Jean Graton morreu mas o seu herói continuará vivo, agora em histórias escritas pelo seu filho Philippe.

Já se perguntou por que razão andamos todos a ver "Lupin"? Diz a Netflix que 70 milhões de pessoas já viram a nova sensação de crime e mistério que anda a arrebatar as correntes torrenciais do streaming. Portugal não ficou atrás: estreada a 8 de janeiro, a série é ainda esta semana a mais vista por cá. É um feito: "Lupin" bateu "A casa de papel" (65 milhões no primeiro mês); bateu a inglesa "Bridgerton" (riqueza, luxúria e traição na Inglaterra da regência de 1810), que estreou no dia de Natal e soma 63 milhões; e deixou até para trás os 62 milhões de "Gambito de dama", o maior sucesso de 2020.

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Produzida e falada em francês, é uma adaptação das aventuras do cavalheiro-ladrão Arsène Lupin, inventado pelo romancista francês Maurice Leblanc no início do século XX. Tem dois ingredientes certos: é um quebra-cabeça que convida a uma experiência envolvente de thriller e tem a esperteza suave do herói. O cavalheiro-ladrão (o ator francês Omar Sy) só envereda pelo crime, que no caso é roubar do Louvre um colar de pérolas e diamantes que pertenceu a Maria Antonieta, para vingar o seu pai, que anos antes fora preso e acusado desse crime que não cometeu. Uma ficção que nos dá justiça que a realidade tantas vezes nos sabe roubar.

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