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Histórias individuais de emigrantes na grande aventura coletiva

Histórias individuais de emigrantes na grande aventura coletiva

"Os Les Portugais" é um relato documental de tom neorrealista sobre a experiência dos emigrantes portugueses em França na década de 1970

Evocar uma história global a partir de uma narrativa particular é um dos grandes trunfos de "Os Les Portugais", edição recente da Ala dos Livros cujo título estranho pretende reter a denominação pejorativa que os emigrantes portugueses tinham em França nos anos de 1970. Ou, de mais forma genérica no que ao período temporal diz respeito, porque as características desse fenómeno preexistente, que a Guerra Colonial fez crescer, não se alteraram muito ao longo das décadas da ditadura.

O argumentista é Olivier Afonso, filho de emigrantes portugueses, e a história que ele faz desfilar perante os nosso olhos será com certeza a do seu pai - e do amigo feito após passar a fronteira a salto - mas terá igualmente elementos de outras vivências, a um tempo semelhantes e díspares, por isso, como escreve no prefácio o professor Manuel Antunes da Cunha: "A emigração é sempre uma história individual e uma aventura coletiva".

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Dessa forma, muitos reconhecerão em diversos aspetos do relato a sua vivência ou a dos seus familiares, mas nenhum se identificará plenamente com os percursos de Mário, Nel e Eva - e de todos os outros aqui contados. Seja a primeira mentira sofrida, logo por parte de quem era pago para atravessar fronteiras a salto e levar os emigrantes a Paris e os deixava bem longe da cidade luz e terra de todos os sonhos. Seja a exploração de quem contratava para trabalhar nas obras homens sem papéis, que é como quem diz, sem direitos, regalias ou benefícios, só com obrigações. Seja as miseráveis condições de vida nos bairros de lata....

Ou seja, por outro lado, as histórias do "desenrascanço" bem português, os pequenos tráficos dos bens que mitigavam as saudades da terra, até as histórias de amores que resultaram e fizeram dos emigrantes e dos seus descendentes cidadãos de corpo inteiro.

Graficamente, "Os Les Portugais" tem assinatura de Chico, nascido francês como Aurélien Ottenwaelter, mas de pseudónimo bem luso. O tom de ficção documental em estilo neorrealista, condimentado com pequenos apontamentos de humor, é reforçado pelo seu traço de limites indefinidos, pouco pormenorizado e por vezes a lembrar esboço, mas provido de um admirável dinamismo que tanto permite representar cenas mais movimentadas como momentos mais íntimos ou pessoais.v

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