Literatura

Homenagem a Eduardo Lourenço na Guarda, Almeida e Foz Côa

Homenagem a Eduardo Lourenço na Guarda, Almeida e Foz Côa

É a primeira de outras caravanas literárias que vão seguir-se para distinguir nomes da cultura ligados à região.

Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Hélia Correia e António Carlos Cortez são algumas das personalidades que vão falar da poética e da poesia na obra de Eduardo Lourenço, ensaísta português falecido em dezembro do ano passado. Cada palavra que disserem será de homenagem ao homem que nasceu na pequena localidade de São Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na vizinhança de uma aldeias históricas do país. É, aliás, um dos objetivos da Caravana Literária organizada no âmbito dos trabalhos preparatórios da candidatura a Capital Europeia da Cultura de 2027 e que vai percorrer os concelhos da Guarda, Almeida e Foz Côa de sexta-feira a domingo.

"É a primeira edição de um projeto cultural novo na Beira Interior que, de forma, itinerante, vai dedicar-se à distinção anual de homens e mulheres da cultura da região e que, como nos pareceu evidente, teria de começar com Eduardo Lourenço", disse ao JN o programador do evento, Jorge Augusto Maximino.

O ensaísta, que viveu boa parte da vida em França, acabaria no entanto por ficar associado à Guarda, não só por causa das raízes familiares, mas também porque está na base da criação do Centro de Estudos Ibéricos da Guarda e entregou parte dos seus livros à biblioteca municipal batizada com o seu nome. "Os poetas e a poesia são o essencial do guião do programa alusivo ao pensamento de Eduardo Lourenço, a que associámos atores e músicos", precisou ainda Jorge Augusto Maximino, referindo-se por exemplo a Sérgio Godinho que, esta sexta-feira, atua no Teatro Municipal da Guarda (TMG) a Chalo Correia, que tem concerto previsto no sábado, em Almeida, e a Maze dos Dealema, que fecha a caravana no domingo em Foz Côa.

Em nome da "metamorfose"

Entre os convidados está António Carlos Cortez, poeta, crítico, professor e ensaísta que chegou a privar com Eduardo Lourenço. Na Casa Fernando Pessoa, em 2011, em dois momentos, e, em 2019, na Fundação Calouste Gulbenkian, durante a homenagem a Jorge de Sena. "Tive oportunidade de falar com ele e não foram palavras de mera circunstância", recordou. "Quando se falou de ensino perguntou-me como era a receção da poesia por parte dos mais novos e eu disse-lhe que, sendo professor há 20 anos, não vejo os mais novos a ler poesia, somos um país de poetas que não lê poesia. Nem poesia nem ensaio", acrescentou. "Expliquei-lhe que temos sofrido um processo de descaracterização da nossa cultura e a globalização é uma espécie de terraplanagem da nossa cultura, pelo que os nossos jovens nas escolas estão apenas a aprender a ser mecanizados, nada de reflexão, nada de pensamento", prosseguiu.

"E é curioso que algum tempo depois Eduardo Lourenço escreve um artigo no Jornal de Letras (JL) onde se referia a um processo de descaracterização mental das gerações portuguesas mais novas. Até por isso, a Caravana Literária acrescenta um objetivo relacionado com aquela que poderá ser um dia 'a metamorfose' na educação. Eduardo Lourenço não está no Plano Nacional de leitura e devia estar", reconheceu o programador Jorge Augusto Maximino. Ideia que António Carlos Cortez subscreve ao lado de outra. "É preciso seduzir os professores para a importância de trazer os alunos (dos 15 aos 25 anos) para estes eventos, porque caso contrário, tudo isto acaba por ser feito e participado pelos mesmos de sempre", concluiu.

PUB

Homenagem em rede

O projeto cultural que se chama festa da literatura e do pensamento, cuja estreia evidencia e celebra o legado de Eduardo Lourenço é apoiado por 17 municípios, 15 da Beira Interior e mais 2 da região espanhola de Castela e Leão que, no futuro, hão de receber outros eventos congéneres. Desta vez, porém, a Caravana parte da Guarda.

"A última vez que Eduardo Lourenço esteve aqui foi em setembro de 2019 na entrega do prémio literário Eduardo Lourenço ao filólogo galego Basílio Lousada", recordou Vítor Amaral, o vice-presidente do município. "Mas é como se ainda aqui estivesse porque, quer na biblioteca onde há cerca de 800 livros cedidos por ele, quer no Centro de Estudos Ibéricos está uma mostra de objetos pessoais, incluindo prémios que Eduardo Lourenço doou à Guarda e que estão dignamente expostos", evidenciou o autarca que tutela o pelouro da cultura.

A viagem segue depois para Almeida onde vai ser inaugurado o largo de homenagem ao pensador que terá uma obra plástica sobre azulejo de Graça Morais. "É uma forma de perpetuar seu nome e o seu brilhantismo intelectual e iluminar ainda mais a nossa estrela de Almeida, concluiu José Alberto, o vice-presidente da Câmara de Almeida.

A Caravana finaliza o percurso em Vila Nova de Foz Côa, onde Boaventura Sousa Santos apresentará um livro sobre o autor. "Ainda temos na mente a presença de Eduardo Lourenço em Foz Côa em 2011, na altura com os seus 88 anos, em que conseguiu dissertar durante quatro horas sobre a crise da época e deu-nos uma autêntica lição", lembrou João Paulo Sousa, vice-presidente da autarquia. "E continuamos ligados, pelo que aceitámos de imediato acolher e partilhar esta iniciativa", concluiu.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG