Festival de Cinema de Berlim (Dia 2)

Hong Sang-soo pode estar a caminho do Urso de Ouro

Hong Sang-soo pode estar a caminho do Urso de Ouro

No segundo dia da Berlinale voltou a falar-se português

O coreano Hong Sang-soo é o que se costuma chamar um "favorito dos festivais". Filmando sem cessar, com um estilo minimalista, nas histórias que vai contando e no modelo de produção que abarcou, produzindo ele próprio os seus filmes e pagando o próximo com o dinheiro que conseguiu ganhar com o anterior, a sua obra tem sido vista regularmente nos principais festivais do mundo, não sendo raro que, no mesmo ano, consiga estar ao mesmo tempo, por exemplo, em Cannes e Berlim.

No entanto, a filmografia de Hong Sang-soo é também conhecida fora desse circuito restrito e Portugal é um bom exemplo, com vários dos seus filmes a chegarem já às salas. Aliás, mesmo antes do atual confinamento, um conjunto de quatro filmes do coreano esteve em sala, podendo neste momento ser visto na plataforma Filmin.

Amado por uns, menosprezado por outros, certo é que Hong Sang-soo tem um estilo, um olhar, uma forma de filmar e de ver o mundo e de dirigir os seus atores. Com o último filme, em competição na Berlinale, "Introduction", fica provado que adicionar um pouco de emoção ao seu registo não lhe fica nada mal e só tem mesmo a ganhar.

Não tendo conseguido ainda um prémio maior - Urso, Palma ou Leão de Ouro - poderá ser desta, até porque o júri é composto exclusivamente por realizadores, que poderão compreender em toda a sua plenitude a ambição cinematográfica de Hong Sang-soo.

"Introduction" é um filme construído em três tempos, tendo como base uma justaposição de uma história de amor com várias relações entre pai/filho e mãe/filha, cruzada ainda com a discussão filosófica do que é ser ator e até onde se pode simular a vida, sem a sentir e sem se sentir literalmente envolvido por ela.

Filmado entre Seoul e Berlim, na sobriedade habitual no realizador, com o seu preto e branco e os seus zooms na imagem, evitando assim desdobramento desnecessário de planos, "Introduction" é tão sereno como os filmes anteriores do cineasta e um pouco mais emocional, aproximando-se aqui mais de um dos autores com quem é regularmente comparado, Eric Rohmer.

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Como este ou outro francês que aparece sempre nas discussões em torno do coreano, Philippe Garrel, parece que os filmes de Hong Sang-soo são sempre iguais. "Introduction" é mais igual do que os outros...

Berlinale em português

No segundo dia da Berlinale, e depois de "No Táxi do Jack", de Susana Nobre, voltou a ouvir-se falar português, com duas obras apresentadas no Forum Expanded, a secção do festival onde circulam obras que, como o próprio nome deixa antever, expandem os limites do cinema tradicional. Pode assim dizer-se, embora de uma forma redutiva, que "13 Ways of Looking at a Blackbird", de Ana Vaz, e "Night for Day", de Emily Wardill são obras de natureza experimental.

Ana Vaz nasceu em Brasília e os seus trabalhos, classificados também como filmes-poemas, através da colagem de imagens e sons, têm sido mostrados em museus, galerias de arte e festivais de cinema. Retirando o título de um poema de Wallace Stevens, o filme resulta de uma encomenda da EGEAC e de um ano de trabalho entre a autora e dois jovens estudantes, refletindo sobre o cinema, numa espécie de caderno de trabalho para um filme possível.

Por seu turno, a britânica Emily Wardill tem dividido a sua vida e o seu trabalho entre Lisboa e Malmoe, na Suécia, trabalhando em "Night and Say" sobre uma encomenda do movimento artístico austríaco Vienna Secession. Alimentando-se, através de uma colagem visual e sonora, da relação entre uma mãe que vive em Lisboa e os dois filhos astrofísicos que desejam programar computadores para reconhecer imagens em movimento, o trabalho de Wardill ganha relevância suplementar quando escolhe para representar a mãe, embora apenas em fundo sonoro, uma Isabel do Carmo que recorda os seus dias das Brigadas Revolucionárias, com a sua prática política, a sua filosofia e a sua ética.

Competição avança em bom ritmo

Com apenas cinco dias para mostrar os quinze filmes que concorrem ao Urso de Ouro, os títulos em competição vão desfilando na plataforma online onde o festival decorre este ano. No segundo dia puderam ser vistos mais três títulos, oriundos da Hungria, da Roménia e de França.

"Natural Light" é a primeira longa-metragem do húngaro Dénes Nagy e leva-nos até um episódio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando uma unidade especial do exército húngaro entra em território soviético ocupado, em busca de resistentes por entre a população local. Mais do que mais um filme de guerra, "Natural Light" centra-se sobretudo nos dilemas éticos de um oficial que, após a morte do seu superior, se vê obrigado a comandar as suas tropas. Filmado durante o inverno e com uma forte preocupação na construção visual, na paisagem sonora e nos rostos dos seus atores, todos amadores, "Natural Light" é mais um sinal de um cinema húngaro de boa saúde.

Da Roménia chega-nos "Bad Luck Banging or Loony Porn", de Radu Jude, cujas curtas-metragens já passaram por Vila do Conde. O título remete para a sequência inicial, filmadas como um vídeo porno caseiro, entre uma professora de liceu e o seu marido, mas que este, sem querer, deixa que circule pela internet. Depois de um segundo bloco em que a personagem da professora vagueia pelas ruas de Bucareste em plena pandemia e com toda a gente usando máscara, o que torna o filme um dos raros a assumir o momento histórico da sua rodagem, tudo acaba numa reunião entre pais e professores destinada a votar a permanência, ou não, da professora ao serviço. As questões morais da sociedade romena de hoje face ao sexo ficam patentes, mas a mensagem é universal.

Finalmente, o experiente Xavier Beauvois, assistente de realização de "O Meu Caso", de Manoel de Oliveira, e autor de filmes estreados entre nós como "Dos Deuses e dos Homens" e "As Guardiãs", coloca também a personagem principal de "Albatros" num dilema moral e legal. Interpretado pelo notável Jéremie Renier é Laurent, chefe da policia de uma pequena cidade costeira, vivendo com a companheira a quem pede em casamento e a filha de ambos, e que, ao tentar evitar o suicídio de um proprietário rural, acaba por o atingir mortalmente.

Desapossado da sua arma e sobretudo do seu trabalho, que cumpria à risca, mete-se no seu barco, que dá título ao filme, e tenta chegar à Terra Nova, enquanto a sua família desespera, em Terra, submetida à rigidez das normas oficiais em vigor nestes casos. Xavier Beauvois concentra-se, no entanto, no retrato de um homem em crise, depois de perder todas as suas referências. Um caso bem à parte no cinema francês de hoje.

Higiene ou distância social?

É na outra secção competitiva, os Encounters, destinada a filmes um pouco fora do esquema narrativo habitual, que se descobriu o filme mais delirante, divertido e fascinante do festival, nestes dois primeiros dias. "Hygiène Sociale", do canadiano Dénis Côté. A história do filme, se assim se pode chamar, está construída entre a personagem de um jovem marginal, um pouco dandy, e cinco mulheres que o rodeiam: a mãe, a mulher, a irmã, uma vítima e a funcionária dos impostos.

Só que o realizador canadiano coloca as suas personagens no meio do campo, afastadas umas das outras e afastadas também da câmara, em longos planos em que vai decorrendo o "debate" entre Antonin e cada uma, à vez, das mulheres da sua vida, ou que obstroem a sua vida neste preciso momento. O dispositivo de Denis Côté tem a ver com a distância social a que estamos todos obrigados, mas curiosamente o texto fora escrito há anos e desenterrado de uma gaveta quando uma das atrizes lhe perguntou se não tinha nada que pudessem filmar na pandemia.

"Hygiène Social" tinha tudo para não funcionar, mas não é que funciona mesmo? Graças ao trabalho dos atores, oriundos do teatro, da graça dos diálogos, melhor dizendo, dos monólogos, e do ambiente visual onde Denis Côté inscreve as suas personagens, trata-se de uma comédia social, reflexo de um momento histórico, inesperadamente divertida e tremendamente original.

O mesmo não se pode dizer dos dois outros filmes já vistos dos Encounters, "The Girl and the Spider", dos gémeos suiça Ramon e Silvan Zurcher, acompanhando de forma aborrecida e pretensiosa a mudança de uma jovem para um novo apartamento, e "The Scary of Sixty-First", estreia na realização da atriz e podcaster bielorussa-americana Dasha Nekrasova, uma mistura de filme de casa assombrada, espiritismo e denúncia de pedofilia, ambientada em Nova Iorque, que mesmo num festival especializado em filmes de terror faria figura de segundo plano. Mas é necessário haver filmes para todos os gostos, num festival de cinema. E o cinema é, e será sempre, também uma questão de gosto.

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