Companhia dos Livros

Humano mas nunca demasiado humano

Humano mas nunca demasiado humano

"Averno Dei", romance histórico de Humberto Rocha publicado pela Mosaico de Palavras, devolve-nos ao Porto de outras eras, confrontando-nos com a força trágica do destino.

Por muito tentadores que possam ser os experimentalismos, as inovações linguísticas ou as abordagens metaliterárias, o apelo maior de um romance continua(rá) a residir na sua capacidade de envolver-nos e confrontar-nos com as contradições da condição humana. Uma evidência da qual nem sempre os autores se lembram, convencidos de que a obediência aos modismos são uma via mais imediata de chegarem aos leitores.

Em boa hora, Humberto Rocha ignorou essas ilusões para a escrita de "Averno Dei", um gloriosamente ultrapassado (à luz dos tais cânones fugidios em voga) que elege o Porto como protagonista ao longo do arco temporal que abarca, ou seja, a segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do século seguinte.

PUB

A notável reconstituição histórica empreendida pelo autor faz-nos recuar até estes tempos tumultuosos, onde a vontade de sobreviver a todo o custo suplantava quaisquer resquícios éticos. As descrições minuciosas transportam-nos até às habitações insalubres ou aos muitos mercados ao ar livre então espalhados pela cidade, captando a miríade de odores, lamentos e imprecações que faziam o dia a dia da Invicta.

O rol de misérias que o autor vai desfiando é extensivo à dimensão humana. O declínio da nobreza nesse período só viria a tornar ainda mais fortes os abusos de poder para com os serviçais, sobretudo as mulheres, que engravidavam dos seus senhores e eram obrigadas a desfazerem-se dos filhos como se fossem despojos. É esse acontecimento funesto que dá início à trama novelesca: Maria, uma jovem governanta violada pelo poderoso Visconde de Alpedrinha, acaba por largar o rebento na infame Roda dos Expostos, o local onde eram abandonadas à sorte as crianças indesejadas.

Destino menos infeliz teve o seu filho, António, adotado por um casal de bem que tenta inculcar-lhe valores morais. Acompanhamos a sua afirmação social e económica, interrompida de forma trágica por um acontecimento que remete para as suas próprias origens: o abuso sexual de que uma das suas filhas é vítima e a consequente reprovação imediata por parte da sociedade.

Romance sobre a força trágica do destino, "Averno Dei" é também uma demonstração de que, ontem como hoje, "o Homem tem uma dimensão a menos", como escreveu Bertolt Brecht.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG