Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa

Laís Bodanzky: "É importante para um país manter viva a sua cultura"

Laís Bodanzky: "É importante para um país manter viva a sua cultura"

O Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa faz já parte da aposta cultural do país, vendo a sua 9ª edição começar esta terça-feira à noite, no cinema São Jorge, em Lisboa, com a exibição do filme brasileiro "Como nossos pais", de Laís Bodanzky.

Até ao dia 6 de março serão projetados filmes do espaço lusófono, com particular incidência para as cinematografias portuguesa e brasileira, nos formatos de longa e curta-metragem e com um espaço dedicado ainda ao documentário.

Entre outros, serão exibidos "Vazante", coprodução entre Brasil e Portugal, da autoria de Daniela Thomas, o novo filme de Lucia Murat, "Praça Paris", com a atriz portuguesa Joana de Verona e, em ante-estreia mundial, o último trabalho do português Fernando Vendrell, "Aparição", inspirado no livro de Vergílio Ferreira.

A abertura do festival terá a presença da realizadora Laís Bodanzky, autora de filmes marcantes da cinematografia brasileira deste século, como "Bicho de sete cabeças" e "Chega de Saudade". "Como Nossos Pais" chega-nos depois de passagem por Berlim e vários prémios alcançados, entre os quais os de melhor filme e melhor realização no prestigiado Festival do Gramado.

A edição de 2018 da Berlinale voltou a ser marcada por uma forte delegação brasileira, à semelhança do que acontecera o ano passado, quando falámos com a realizadora. "Não é por acaso. É o resultado de um trabalho grande feito no Brasil em torno da sua política cinematográfica, organizada pela Agência Nacional de Cinema, a Ancine", explica Bodanzky.

A realizadora afirmou-nos que é uma política "que estimula o aparecimento de novos géneros e novos cineastas, e estamos a colher hoje um trabalho que é já de muitos anos, não foi de um momento para o outro." Confrontada sobre se a nova situação política no Brasil poria em risco essa dinâmica, a realizadora admitiu que "a primeira medida do Temer foi tentar acabar com o Ministério da Cultura. Houve um primeiro sinal de falta de compreensão da importância da cultura de um país. Isso não aconteceu, mas deixou toda a classe artística em estado de atenção." E sublinhou: "É importante para um país manter viva a sua cultura".

Se a questão da identidade de um país através da cultura é ou devia ser consensual, o filme de Bodanzky aborda a identidade do indivíduo através da história de uma mulher que descobre que o homem que sempre pensou ser o pai não o é efetivamente, já que a sua conceção resultou de um caso amoroso fortuito nunca até aí revelado pela mãe.

"O projeto começou realmente pelo título", assegurou a realizadora. "E vem de uma canção muito conhecida da Elis Regina. Não era tanto a letra, mas o próprio título que me interessava. O guião é do Luis Bolognesi e meu e era a primeira vez que eu também escrevia. Tinha vontade de fazer uma reflexão sobre a mulher contemporânea. Umas vezes cometemos os mesmos erros dos nossos pais, outras vezes aprendemos com eles", concluiu a realizadora.