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120 anos do nascimento de Fernando Pessoa

120 anos do nascimento de Fernando Pessoa

O poeta que viveu e morreu quase anonimamente converteu-se no maior ícone da língua portuguesa, o único cuja glória não conhece fronteiras. Nos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, o fervor em torno da sua obra está intacto.

O homem sem biografia - "um cabide onde todas as figuras que criou se suspendem", como o define Mário Cláudio, autor do recente "Boa noite, Senhor Soares", um itinerário novelesco do universo pessoano - tem inspirado, nas últimas décadas, mais criações do que qualquer outro autor português. Um contrasenso? Não necessariamente. "É uma figura neutra, onde tudo cabe. Mas, acima de tudo, Pessoa é muito mais um actor do que um escritor, porque representou vários papéis", defende Mário Cláudio, que diz preferir de longe os heterónimos do autor aos textos publicados em nome próprio. O fascínio provocado por esta figura elíptica, demasiado ausente para encaixar neste Mundo, é bem evidente nas dezenas de aproximações à sua vida e obra feitas por criadores, nacionais e estrangeiros, de áreas como as artes plásticas, literatura, cinema, música e teatro. Os dois quadros pintados a título póstumo pelo seu amigo Almada Negreiros - com o poeta sentado a uma mesa de café a fumar - são a imagem mais recorrente , mas não propriamente a única. Artistas como Vieira da Silva, Mário Botas, Alfredo Margarido, Jorge Martins, Costa Pinheiro e José de Guimarães, entre muitos outros, contribuíram para tornar familiar o rosto de Fernando Pessoa junto de públicos que não são leitores habituais. A reprodução destes estereótipos (com os óculos, chapéu e bigode característicos) teve, porém, um lado menos benéfico, segundo o crítico de arte Rui Mário Gonçalves, ao criar algumas "imagens anedóticas". A (omni)presença pessoana é tal que não se torna fácil encontrar um criador musical português que, a dada altura da sua obra, não se tenha confrontado com o poeta nascido há precisamente 120 anos. Basta citar Fernando Lopes-Graça, Joly Braga Santos, José Afonso, Mariza ou Camané, mas também os mais improváveis Sam the Kid e D-Mars. Com menor prevalência, o teatro não tem escapado à incursão pela obra de Pessoa. Já este ano, o encenador Ricardo Pais concretizou um projecto de longa data, levando à cena "Turismo infinito", primeiro no Teatro São João e depois em digressão nacional, um mosaico formado por algumas das dezenas de personagens que compõem a identidade pessoana. Com tamanha multiplicação de projectos, o habitual discurso adoptado na revisitação de vultos da arte já desaparecidos - o esquecimento - perde todo o sentido. José António Gomes, professor universitário que organizou a antologia "Poesia de Fernando Pessoa para todos", admite que "os justos esforços de divulgação da sua obra deveriam ser extensivos a outros autores igualmente importantes da literatura lusa, como Aquilino, Camilo e, até, Camões". Apesar de o fervor se manter intacto, José António Gomes acredita que "ainda há muito por fazer" juntos dos jovens do primeiro e do segundo ciclos do ensino básico, pelo que se justifica o lançamento de uma antologia que reúne 30 poemas, entre os quais "Poema pial", "Ó sino da minha aldeia" ou "A fada das crianças", e conta com ilustrações de António Modesto, plenas de referências ao cubismo e a outros movimentos do século XX. A certeza de que mais pode ser feito é também defendida pelo investigador Richard Zenith, que, em declarações à Lusa, considerou ser necessário um investimento adicional capaz de revelar "o grande mistério do génio".