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A (de)composição de Josef Nadj

A (de)composição de Josef Nadj

"Mnémosyne" está este fim-de-semana no Mosteiro de S. Bento da Vitória no Porto

Ainda que a abolição de fronteiras entre as linguagens e os géneros artísticos seja muito corriqueira nas últimas gerações das artes performativas, são poucos os que conseguem trazê-las até ao público de uma forma igualmente competente, sem que uma das linguagens - se não todas - sofra de atrofia.

O sol quando nasce no Olimpo da transdisciplinaridade não é para todos, mas Josef Nadj é seguramente um dos iluminados. O bailarino, artista visual e fotógrafo de origem húngara, tem uma visão da humanidade poética e apaixonada, e consegue ter uma marca estética indelével.
Depois de ter estreado, em setembro, na Biennale de la Danse de Lyon, o díptico "Mnémosyne", viajou até ao Porto.

O trabalho engloba uma exposição fotográfica, patente até dia 25, e uma performance que estreou esta quinta-feira, no Mosteiro de S. Bento da Vitória. A exposição fotográfica é composta por imagens, todas da autoria de Nadj, detonadas pela memória de uma rã atropelada, uma visão que marcou a infância e a imaginação do artista.

Um mundo de possibilidades e de histórias, de caráter pueril, abrem-se na mente do artista, transpostas para 100 histórias visuais. O exercício semiótico é feito todo a preto e branco, onde diferentes batráquios ladeados com diferentes objetos do quotidiano de Nadj vão mudando de sentido e de escala.

Muitas vezes a imagem estática da rã prensada ganha um sentido coreográfico pelas posições que adota no momento de finitude. Se por vezes a dança parece vinda de um universo infantil, com imagética de desenho animado, outras tem um profundo espírito lúgubre.

A composição e a decomposição criam anatomia, medicina, zoologia e sempre uma linguagem poética para quem queira ver as camadas de sentido que dali se podem extrair. A mostra pode ser visitada todos os dias, das 15 horas às 18 horas.

A performance muito simples que se precede à mostra, interpretada pelo próprio artista, é também uma das imensas camadas. O público é encerrado dentro de uma minúscula caixa negra que é também uma câmara escura. A música é toda compassada e repetitiva e como num truque de ilusionismo, Nadj aparece como uma múmia com gestos precisos, para que nunca se perceba o truque. Numa mesa de escultor vai moldando em barro um animal que ao girar ganha novas formas, como todos ganhamos com o passar do tempo.

O universo da taxidermia está muito presente na performance, com a presença de um duplo humano, de um gato e de um pássaro que vão montando um quadro de família. Se há algo de terrivelmente cómico nas personagens mumificadas e empalhadas há por outro lado, uma letargia fúnebre enquanto a família é hipnotizada por uma pinha. O estado ciclotímico do público é subitamente registado num diapositivo, onde nos transformamos num momento de batráquio do universo Nadj.

A performance pode ser vista até domingo no Mosteiro de S. Bento da Vitória.

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