Cultura

A guitarra de Marc Ribot é uma arma política

A guitarra de Marc Ribot é uma arma política

É já nesta terça-feira que Marc Ribot apresenta no Auditório de Espinho o seu disco "Songs of resistance". Um grito de alerta para "os tempos perigosos em que vivemos", afirmou o guitarrista ao JN.

É preciso recuarmos até 1982 para encontrarmos o primeiro contacto do guitarrista norte-americano Marc Ribot com os palcos portugueses. O instrumentista era então um jovem membro da banda de Wilson Pickett, o mítico cantor de "In the midnight hour" que colecionou êxitos nas décadas de 60 e 70. A raridade com que atuou em Portugal desde então tem vindo a mudar: no dia 30 apresenta-se no Auditório de Espinho e no verão vai ter a responsabilidade de abrir o festival Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


Em ambas as datas é o novo disco, "Songs of resistance", que concentra atenções. Com a colaboração de ilustres como Tom Waits, o disco reúne uma dúzia de canções datadas de 1942, com as quais procura estabelecer relações entre um mundo em guerra, como então estava, com o atual, em que as alterações climáticas, as 'fake news' e os líderes populistas estão entre as principais ameaças.

"Quis que as pessoas olhassem para o passado para retirar as ilações devidas face ao presente", explicou numa conversa telefónica a partir do seu apartamento nova-iorquino.

Concluído em Março de 2017, o disco só seria publicado somente um ano e meio mais tarde, enfrentando uma série de problemas na distribuição que o músico recusa associar às fortes críticas nele endossadas a Donald Trump, de quem é um declarado opositor. Todavia, não iliba o presidente norte-americano de muitos dos problemas que afetam as sociedades contemporâneas.

"Vivemos tempos perigosos", reforça, sublinhando que parte da culpa se deve aos artífices do anunciado "admirável mundo novo": "O argumento de que a Internet iria proporcionar-nos música e informação gratuita só veio beneficiar empresas como a Google, Facebook ou Youtube, pois usam conteúdos pelos quais não pagaram. Foram as empresas 'hi tech' de Silicon Valley que propagaram a ideia de que o ciberespaço devia estar acima das leis governamentais e dos direitos de autor".

Pese embora todo o seu ativismo, o guitarrista e compositor recusa definir-se como músico de protesto, por entender que há muitas formas de exprimir resistência que não passam pela música. "Ninguém muda o sentido de voto com uma canção. Ela pode, sim, dar força às pessoas que estão na luta".

A música como processo coletivo

Falar do percurso artístico de Marc Ribot equivale também a falar da sua longa lista de colaborações. Se com Tom Waits construiu uma sólida relação de amizade que atravessa os anos, tem feito parcerias também com artistas tão díspares como Robert Plant, Caetano Veloso ou Marianne Faithfull. O que têm em comum, afinal, todos eles? "São grandes artistas e muito inteligentes. Sabem muito bem o que podem fazer com uma canção", sublinha. Não significa isso que nutra uma admiração por todos. "Sou profissional", reforça, admitindo que "são muito poucos os artistas com os quais recusaria colaborar".

Apesar de estar atualmente em digressão a solo, Marc Ribot crê que a música é "um processo essencialmente coletivo". Se não diretamente, pelo menos do ponto de vista metafórico. "Pertencemos a uma comunidade maior cujas origens se perdem nos tempos. Em última análise, ninguém é original".