Cultura

A liberdade de viajar sozinho

A liberdade de viajar sozinho

Liberdade é a palavra mais escutada, quando se pergunta sobre as vantagens de viajar sozinho.

Surge na voz da atriz Dalila Carmo, como na das investigadoras Ana Fonseca e Graça Joaquim. Todas têm experiências diversas neste campo, na Europa, na América do Sul, em África. E garantem que, assim, está-se mais disponível para conhecer locais, pessoas e a si mesmo.

"Este género de viagem faz muita confusão a muita gente; para mim, é muito libertador ir sozinha", diz Dalila Carmo, que dessa maneira percorreu oito países da América do Sul, durante cinco meses e meio, entre 2014 e 2015, com encontros pontuais.

"Já aconteceu viajar com pessoas com um objetivo de viagem diferente do meu e ninguém estar feliz. Assim, ninguém aponta nada a ninguém. Não imponho nada a ninguém, ninguém tem de andar ao meu ritmo", explica Dalila. Pode demorar-se num lugar mais bonito, dormir até tarde ou madrugar, se lhe apetecer.

A atriz não viaja pelo convívio, mas para conhecer os sítios. "Uma das coisas que acontecem quando se viaja com amigos ou com o companheiro é que a pessoa fecha-se muito no grupo e não se relaciona tanto com os locais", sustenta.

Dalila chegou a andar sozinha por países como Israel, Eslovénia, Turquia ou Sérvia, entre outros. Também já fez viagens em parte acompanhada, em parte só. "Vou para sítios improváveis, às vezes para ver um espetáculo."

Conhecer o outro, que "é igual a nós"

Ana Fonseca, investigadora e técnica de projetos em Organizações Não Governamentais, perdeu a conta aos países que correu sozinha, sobretudo desde que, em 2003, foi viver para África. Malawi, Cabo Verde, Senegal ou Cuba são alguns. Muitas vezes aproveitou oportunidades profissionais - agora está em Lisboa, mas já morou em Inglaterra, Moçambique, Angola ou Guiné-Bissau.

Para Ana, "viajar é mais do que colecionar sítios e fotografias"; é uma aprendizagem". Gosta de falar com as pessoas, ouvir as suas histórias, detetar semelhanças ("O outro é, na maior parte das vezes, igual a nós."). E viajar sozinha serve bem esse propósito.

"É uma oportunidade para conhecer pessoas de sítios diferentes, de abrir horizontes, de perceber outras culturas e de se conhecer a si próprio melhor. Muita gente me diz: ' Não tens medo? É uma experiência tão solitária'. Nunca foi, para mim. Na maior parte dos momentos, acabei por estar com outras pessoas", remata.

Andar em rebanho, essa coisa latina

"Há uma coisa muita latina: andar em rebanho. Vemos um escandinavo mais facilmente a viajar sozinho. Nós somos muito apegados ao grupo e às regras." Palavras de Dalila Carmo, reforçadas por Graça Joaquim, investigadora que também é adepta das viagens a sós (já fez várias, ao Brasil, à China e a Marrocos, por exemplo).

"Se falar com um inglês ou com um sueco, isso é a coisa mais normal do mundo", começa por dizer Graça Joaquim, autora do livro "Viajantes, viagens e turismo - narrativas e autenticidades", feito a partir da sua tese de doutoramento em sociologia. "Muita gente viaja sozinha no mundo; entre nós não é tão comum".

Em Portugal, "por questões culturais", pouca gente viaja sozinha e pouca gente faz viagens de longa duração, ao contrário do que sucede no Norte da Europa ou na Austrália. Por cá, "tendemos mais a investir em coisas tangíveis e concretas", como carros ou casas, acrescenta a investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE-IUL, também professora na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

Pedalar na selva: gorilas e cerimónias xamânicas

Pedro Moreira já viajou por vários países sozinho, "por força das circunstâncias", explica ao JN. "Prefiro viajar acompanhado. Mas mais vale viajar sozinho do que não viajar de todo. Quando queremos fazer uma cena mais diferente, é difícil encontrar alguém [com quem ir]. E não é isso a reter-me."

Em julho, Pedro concluiu uma viagem de 15 meses, de Portugal a África do Sul, em bicicleta. "Toda a gente dizia: vais para África do Sul sozinho; vais morrer", recorda. Certo é que "foi uma descoberta constante. Fui tão bem tratado e só paguei para dormir em 20% das vezes. Chegava a uma aldeia no meio da floresta e o pessoal albergava-me e dava-me de comer".

O viajante já tinha ido de Portugal a Singapura, em 2011. A experiência, de nove meses e meio, metade deles a sós, resultou num livro: "Daqui ali - de Portugal a Singapura por terra". Viajar sem companhia conduz a maior introspeção, mas há momentos que gostaria de ter partilhado, conta.

Também houve alturas em que sentiu medo. Uma delas no Gabão (o mesmo país onde participou numa cerimónia xamânica), quando ouviu bem perto os roncos de um gorila. Só soube que animal era mais tarde, ao chegar a uma aldeia.

"Pensei: vou ser o gajo que vai morrer comido por uma pantera. Parei, porque tinha lido que não se deve fugir de um felino. Fiquei na presença dos sons", recorda Pedro Moreira, que fala com uma graça natural. "Não me arrependo. Se tivesse morrido, se calhar arrependia."

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