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Adele incendeia 18 mil corações em Lisboa

Adele incendeia 18 mil corações em Lisboa

Adele cantou 18 canções e fartou-se de contar histórias. Sábado saiu triunfante da Meo Arena. Este domingo voltará lá para cantar sobre corações amarrotados ou corações eruptivos - e isso, no fundo, é cantar sobre todos nós.

Passavam nove minutos das 20 horas de sábado quando as luzes da Meo Arena se apagaram e aquela voz encheu o ar ao dizer apenas uma palavra: "Hello". Foi o suficiente para mais de 18 mil corações dispararem e uma ovação pipocar num estrondo. Os olhos procuravam-na e ela surgiu não no palco mas no inesperado centro da plateia. Os focos brancos desabavam sobre Adele embrulhada num vestido negro a tremeluzir. E uma batelada de telemóveis ergueu-se para captar aquele momento, o mais esperado desde aquele dia de dezembro em que mais de 30 mil bilhetes esgotaram em poucas horas.

Não foi preciso muito tempo para se constatar que o concerto de Adele seria uma cordilheira de comoção generalizada. Assim foi durante duas horas. O público, num empolgante entusiasmo, não lhe poupou mimos ou glórias e a cantora pareceu genuinamente espantada com semelhante "feedback" emocional. "Nunca na vida ouvi uma multidão tão barulhenta", revelou, no meio de carinho trovejante.

O primeiro dos dois concertos de Adele em Lisboa foi irrepreensível, um misto equilibradíssimo de profissionalismo com uma descontração rara numa popstar. A voz nunca lhe falhou. A banda esteve sempre à altura. O som, pelo menos à frente, esteve perto da perfeição.

Adele revelou-se uma simpatia de pessoa. E não foi propriamente daquelas simpatias protocolares que amiúde vemos nos grandes artistas. Parece mesmo ser uma porreiraça que adora falar e interagir com o público. E falou muito, muito. Não poucas vezes as pausas entre as canções estendiam-se por quatro ou cinco minutos porque ela queria tagarelar com a assistência. Chamou duas crianças ao palco - Catarina e Pedro - e pediu à sala inteira para cantar os parabéns a Catarina.

Adele contou histórias da sua vida, peripécias com o namorado ou viagens. Disse que na sexta-feira foi para a praia, que a comida portuguesa é "fuckin'great!" e que foi passear para o jardim zoológico.

O discurso é sempre condimentado por muitos palavrões, um pormenor que até lhe assenta muito bem. Adele pode ter 18 mil fãs à sua frente mas fala com eles como se todos fossem os seus amigos sentados à mesa de um "pub" londrino. E sente-se que nada disso é forçado, que é tudo muito espontâneo.

Musicalmente falando, em duas horas ela deixou 18 canções. O disco mais recente - "25" - foi o mais tocado, com 8 músicas. Seguiram-se 6 de "21", 2 de "19", uma versão de "Make you feel my love", de Bob Dylan, e a inevitável "Skyfall" de James Bond. Trouxe uma banda considerável com ela, com direito a secção de cordas e tudo.

A dada altura, quando cantava num regime mais acústico e comedido, atrapalhou-se a meio de "Million years ago", e trocou a letra. Lançou um súbito "Wrong words! Shit! Sorry!", interrompeu a música mas recomeçou imediatamente.

A reta final do concerto deu-se com "Chasing Pavements", "Someone like you", "Set fire to the rain", "All I ask", "When we were young" e "Rolling in the deep".

Um dos momentos mais marcantes para os fãs terá certamente acontecido durante "Someone like you", com o pavilhão inteiro a entoar a letra e toda a gente com a lanterna do telemóvel ligada, para criar um efeito estelar. Até houve um sujeito que preferiu erguer a chama de um isqueiro, um gesto heroico e cada vez mais raro mas que merece ser preservado.

O seu espetáculo foi ainda reforçado pelo magnífico trabalho de projeção de vídeos em telas transparentes que amiúde estavam à frente da banda ou num outro ecrã numa parte mais recuada. As imagens eram quase todas de um encanto assinalável - em Skyfall, por exemplo, flutuavam nuvens prateadas em céus com tons de carvão - e o facto de as duas telas se dissolverem uma na outra proporcionava um efeito tremendo. Tudo isto com muitos grandes planos da cara da cantora e com uma resolução de imagem que raramente se vê em projeções desta dimensão.

O concerto deste sábado juntou 18620 pessoas na Meo Arena e lotou a sala. Para este domingo esperam-se outros tantos. Não consta que se desiludam com a competência e espontaneidade de Adele que cá vem cantar sobre corações amarrotados ou corações eruptivos - e isso, no fundo, é cantar sobre todos nós.

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