Colóquio

António Variações "inundava o quintal com fados", lembra irmão

António Variações "inundava o quintal com fados", lembra irmão

Um colóquio em torno das várias facetas de António Variações, na Faculdade de Letras da universidade de Coimbra, e um concerto, esta sexta feira, no Teatro Gil Vicente, em que dois irmãos do cantor vão interpretar um tema dedicado à mãe "Deolinda de Jesus". Variações "está vivo" entre nós.

Na sessão de abertura do colóquio "Variações sobre António", Jaime Ribeiro sublinhou duas memórias. A primeira foi a "luta" de António com o pai, que queria que ele ficasse na aldeia (Amares, no distrito de Braga) e fosse marceneiro, em vez de partir para Lisboa, como acabou por acontecer.

A segunda recordação prende-se com as ocasiões em que o artista voltava a casa: "Inundava o nosso quintal a cantar fados da Amália. As pessoas já sabiam que estava lá o António, porque a voz dele repercutia-se pelo vale".

Já Luiz Ribeiro, que tem um disco editado ("Então fui a Braga..."), falou ao JN dos anos em que, ainda criança, viveu com o irmão na capital. Era um "pai austero", que o obrigava a "lavar os pés à noite" e o levava consigo todos os dias para o trabalho, numa cooperativa alimentar, até fazer 12 anos, para que não ficasse sozinho em casa, lembrou, divertido.

No escritório também se perseguia o sonho de cantar

Nas instalações onde Variações então trabalhava (antes de começar a sua "carreira meteórica, de 1982 a 1984, ano em que faleceu), "ele aproveitava a acústica da sala do escritório para treinar a voz", recordou Luiz. "O sonho dele foi sempre cantar", completou Jaime.

"O António foi sempre, para nós, uma surpresa", e continua a ser, como prova o facto de ser a figura central de um colóquio na mais antiga universidade portuguesa, afirmou Jaime Ribeiro.

Sobre o artista que causou sensação, na década de 1980, com o seu estilo exuberante, disse o irmão Jaime: "Ele sabia que a sua forma de vestir provocava curiosidade, mas detestava que as pessoas parassem" a olhar. António, que chegou a mandar fazer roupas desenhadas por si, "vestia-se assim porque era o conceito estético dele", e não para provocar.

Luiz Ribeiro, por seu lado, apontou algumas curiosidades, como o facto de António ficar "zangado" quando lhe chamavam Joaquim (o seu segundo nome), e a suspeita de que ele havia deixado crescer a barba por causa do nariz, razão pela qual não apreciava ser fotografado de perfil.

Irmãos interpretam tema de Variações dedicado à mãe

Aqueles dois familiares do artista vão interpretar juntos o tema que António Variações dedicou à sua mãe, "Deolinda de Jesus", num concerto que também reúne músicos de Coimbra, esta sexta-feira, dia 8 de dezembro, às 21.30 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente.

O envolvimento de Jaime e Luiz Ribeiro em "Sempre além: um espetáculo em torno de António Variações" é natural, porque a música "está no sangue da família", muito por influência do pai, "exímio tocador de cavaquinho", notou Jaime Ribeiro.

As atividades integradas no colóquio são de acesso livre, com exceção do concerto, que conta com a participação de músicos da cena pop e rock de Coimbra, como Raquel Ralha, Victor Torpedo, João "Jorri" Silva ou Carlos Mendes. O bilhete para o espetáculo custa 10 euros.

Contributo para o fim do Portugal "envergonhado" do salazarismo

"Variações sobre António" apresenta comunicações de teor académico muito diversificadas sobre o artista que é associado à modernização de Portugal, um país "envergonhado que vinha do salazarismo", pelo responsável pela organização do colóquio, o professor da Faculdade de Letras Osvaldo Silvestre.

"Sempre me pareceu que o trabalho dele permitia fazer um corte transversal para analisar a fase de transição da ditadura para a democracia e para o Portugal da Europa", afirmara já Osvaldo Silvestre ao JN, em antecipação do evento.

Variações "era o tipo de português que não tem vergonha de ser português e, ao mesmo tempo, não tinha vergonha de ser cosmopolita. Tinha uma grande falta de vergonha, e isso foi um grande contributo para a modernização de Portugal", no que respeita às mentalidades e à cultura em sentido mais lato, concluiu o docente, fã assumido do cantor.

Os temas das comunicações vão da música, das letras e do legado de António Variações à sua "persona queer" e à cobertura da sua morte na imprensa.

Por exemplo, nesta qunta feira, foram apresentados "elementos para uma poética da cassete", objeto geracional que serviu de ferramenta ao cantor, numa conferência a cargo de Joana Matos Frias, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

E Joana Fonseca, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, detetou a influência de Variações em letras de artistas do rap nacional, na sua comunicação, intitulada "Variações escópicas sobre António".