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Dias da Dança

"Aponta uma arma à tua cabeça e dispara contra o preconceito"

"Aponta uma arma à tua cabeça e dispara contra o preconceito"

"Pega numa arma." No Brasil, um negro é assassinado a cada 23 minutos. "Pega numa arma e aponta-a à tua cabeça." No Brasil, a esperança média de vida de um transexual é de 35 anos. "Pega numa arma, aponta-a à tua cabeça e dispara." No Brasil, só no ano passado foram dizimados mais de 400 homossexuais.

"Pega numa arma, aponta-a à tua cabeça e dispara contra o preconceito", pediu, este sábado, no Teatro Rivoli, no Porto, Linn da Quebrada. A criadora integrou o painel de "Mulheres em Te(n)são", um encontro programado no âmbito da edição inédita que este ano junta o Dias da Dança (DDD) e o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) e que, tendo colocado o Brasil no centro das atenções, arriscou discutir "a arte feita pelas mulheres como arma positiva e de resistência". Linn da Quebrada foi o farol da tarde.

"Canto o que canto, falo o que falo, faço o que faço, antes de tudo por mim. Nunca quis representar ninguém. Só quis salvar a minha vida. Quero manter-me viva. Essa é a minha maior militância", declarou a artista de 28 anos antes de interpelar (congelar?) a sala.

"Por muito tempo, fui destinada à solidão. E talvez só não esteja desfrutando - no seu mais saboroso e cruel gosto e gesto - dessa solidão, apenas porque passei a ocupar um espaço de admiração. Agora, vocês me admiram. Agora, vocês estão curiosas para saber como me mantenho viva, como é que apesar de todas as violências e atrocidades de que você também é responsável eu consigo estar viva, como é que consegui ter algum respeito e ganhar algum dinheiro. Como estou viva se o mundo faz de tudo para que eu não exista, não é?"

Ainda não era esta a maior interpelação de Linn sobre a discriminação, que é descarada no Brasil mas não um exclusivo brasileiro. "Talvez seja a hora de apontarmos uma arma contra as nossas próprias cabeças e matar o macho, o branco, o homem, o senhor de engenho, o capataz que vive dentro de nós, nas nossas ações, nas nossas relações." E, por fim, concretizou: "peço que olhemos para o nosso lado e nos perguntemos: onde estão as pessoas negras? Com quantas pessoas trans ou negras vocês se relacionam? Quantas beijaram no rosto? Quantas frequentam as vossas casas? Quantas trabalham com vocês?"

Linn da Quebrada, que esteve em dose tripla no Rivoli - num filme, num debate e num concerto -, falava da representatividade, do perigo e da preguiça que ela constitui. A artista de 28 anos, cujo trabalho passa por "colocar o próprio corpo em choque e em cheque", que luta "contra as artes cínicas" em prol das "artes cénicas" e que à cultura da ficção prefere a força da "fricção", socorreu-se do seu processo criativo para explicar o risco de ilusionismo da representatividade.

"O meu campo de tensão vem de criar novos projetos de mundo, com novas corporalidades, utópicas, para que eu possa viver coisas que eu nem imaginei. Para isso, sinto que temos de criar uma linha de tensão entre quem fala e quem escuta, uma linha entre certos meios que continuam a reproduzir estruturas já falidas, mas que nós estamos colocando em tensão para reinventá-las e para propor novos diálogos. Mas, para isso, não precisamos apenas de representatividade. A representatividade tem limites e nós temos que borrar cada vez mais esses limites."

A representatividade, insistiu, "é uma imagem bidimensional, estagnada, onde nós colocamos a nossa força. nossa esperança," E ironizou: "É a esperança que nos mantém esperando, esperando, esperando... Por isso, a representatividade não pode ser o nosso objectivo final, ela tem de ser estratégia, caminho."

Um caminho, afirmou, que passa pela partilha de responsabilidades. "É preciso que a gente entenda e divida essa responsabilidade na nossa atuação política. Precisamos discutir novas possibilidades de masculinidade, precisamos de estabelecer linhas de diálogo, criar pontes entre nós, precisamos entender qual é a nossa função e a nossa atuação política."

O corpo de Linn da Quebrada é, salientou, "político". Mas o nosso, alertou, "também é".

"Disputo o direito ao meu próprio corpo"

O encontro "Mulheres em Te(n)são" que assinalou a contagem decrescente para o final do DDD, e que juntou à mesa, vindas do Brasil, três criadoras (Alice Ripoll, Lia Rodrigues, Linn da Quebrada) e duas curadoras (Nayse Lopez, Sonia Sobral), colocou em evidência o país de contradições que o Brasil é.

Aquele que é um dos países do mundo mais avessos à diferença, é também o país que deu ao mundo a transexual "preta e periférica" que fez do corpo manifesto político que o mundo não tem deixado de ouvir. "Pretendo estabelecer tensão entre nós, para que essa tensão acabe em tesão. Quero sentir tesão, tesão enquanto potência e possibilidade de vida, de vontade de viver, de discutir novas possibilidades de feminino, novas corporalidades."

O feminino social, político, até científico, disse, já não responde às perguntas do mundo contemporâneo. "Já faz muito tempo que estamos a discutir o feminino, já faz muito tempo que os olhos da ciência olham para o corpo feminino e dizem o que é o feminino. Ser feminino, ser mulher é ser o que não é o homem. O homem, o universal, Ele, o Todo Poderoso, ele é o corajoso, o forte, o viril,o da oratória, o que conquista o mundo, o do espaço público, Isso é o Ele, isso é o que nós admiramos. O feminino é o espaço privado, é o que reproduz e não o que produz, é o submisso, o doce, o dócil", denunciou.

O Brasil é o país que cristaliza conceitos mas foi também o primeiro país do mundo a eleger como deputada a indígena Sônia Guajajara, por muito que Bolsonaro insista em dizer que "não haverá nem mais um centímetro de terra para indígenas". E é também o país que elegeu como deputada a transexual Erica Malunguinho.

É por isso que é também o país, como notou Sónia Sobral, curadora de dança do Centro Cultural de São Paulo, onde "nunca mais nada será igual. Nunca mais será igual depois de estas mulheres terem partilhado o mundo connosco no poder institucionalizado." Elas fazem tudo, "resistem, criam, sofrem, riem, apesar de tudo, há muito tempo". E apesar de Bolsonaro.

"É um paradoxo político. Tudo piorou porque tudo havia melhorado", admitiu. Sobral colocou a tónica no ódio à liberdade. "Estamos no campo do que é homogéneo, tudo é institucional. O ódio que existe é à coragem da liberdade, essa coisa que o processo civilizatório matou em nós." E torna Linn: "Liberdade é algo que não se dá individualmente. Ser livre é ser livre de... de algo."

Alice Ripoll, que apresentou duas peças marcantes no DDD ("aCORdo" e "Cria"), integrou o seu processo criativo, influenciado pela maternidade recente, na discussão. "A arte cria um caminho que amplia as possibilidades em direção à liberdade. Quanto mais nos afastamos dos estereótipos, mais liberdade ganhamos na vida." Lia Rodrigues, "branca privilegiada", que acredita que "a solução vem da favela" apesar de ter ensaiado durante oito meses na favela da Maré e no meio de tiroteios a peça-catarse "Fúria", que estreou esta semana no Teatro Nacional São João, rematou com Conceição Evaristo: "Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer."

Poderia ser um relevante incentivo anímico para o que se segue, e não apenas no Brasil, mas o convite de Linn da Quebrada é mais urgente, porque nos coloca a todos em causa. Ou em "choque e cheque", como ela gosta de dizer:

"É preciso que a gente perceba onde cada uma de nós é veículo da violências, onde cada uma de nós serve como conservador da violência para proteger o nosso território. Eu vim para a Europa, eu ando pelo mundo, por disputa. Estou disputando poder, linguagem, o direito ao meu próprio corpo, a decidir sobre mim mesma e a sofrer as consequências disso. E eu convido vocês a fazer a mesma coisa."