Memória

Bruno Ganz, anjo tornado homem que foi a cara do Mal

Bruno Ganz, anjo tornado homem que foi a cara do Mal

Entrou no imaginário coletivo global com uma performance que perdurou no cinema e que foi muito além dessa arte em que se notabilizou. Bruno Ganz, ator suíço que personificou Adolf Hitler nos seus últimos dias, no filme "A queda", morreu, aos 77 anos.

O anúncio foi feito ontem, pela sua agente. Ganz sofria de cancro e faleceu em Zurique, Suíça, onde nasceu em 1941, filho de um mecânico casado com uma italiana.

Será certamente injusto recordá-lo apenas por esse notável e controverso papel, para o qual se preparou com intensidade e dificuldade. "Perguntei a pessoas que conheço há muito tempo e em quem confio, e todos me aconselharam a não aceitar", revelaria mais tarde.

O filme de 2004 era a primeira produção alemã desde 1977 que levava a sinistra figura de Hitler ao grande ecrã. Havia ainda feridas abertas, bem fundas na consciência alemã, mas nem por isso deixou de mergulhar no trabalho como sempre o tinha feito. Meticuloso na investigação, na voz, nos gestos - ninguém esquece aquelas mãos trémulas sobre os mapas ou atrás das costas curvadas, baseadas na convicção de que Hitler sofria de Parkinson. Confessou um dia que tinha dificuldade em distanciar-se das incontáveis personagens a que deu vida. Com Hitler tudo foi tudo muito mais problemático."Disseram-me que quando estava a fazer o filme falava muito sobre Hitler, e nem sempre com a devida e politicamente correta distância".

O seu Hitler, altamente elogiado e severamente criticado, colou-se-lhe à pele e fugiu-lhe ao controlo. Uma das cenas fulcrais do filme gerou memes em todo o Mundo e, durante alguns anos da última década, a raiva de Ganz foi parte fundamental dos alicerces da era da viralidade em linha.

Demorou tempo até que a perceção sobre Bruno Ganz voltasse a ser a do ator de capacidades multifacetadas que fez carreira no cinema, TV e teatro europeus, que nos tinha dado Damiel, o anjo que quis ser homem em "As asas do desejo"(1987), de Wim Wenders, e que trabalhou, ao longo de 50 anos, com Herzog, Coppola ou Angelopoulos. Um percurso que lhe valeu em 1996 um Iffland-Ring, honra austríaca atribuída há mais de 200 anos ao mais importante ator de teatro de língua alemã e que, no séc. XX, só esteve na mão de quatro artistas. O detentor do anel é quem escolhe o seu sucessor. Desconhece-se quem foi o escolhido por Ganz.

A carreira de Ganz passou também por Portugal. Foi protagonista de "A cidade branca", o filme de Alan Tanner rodado em Lisboa, no início da década de 1980, no qual contracenou com a atriz portuguesa Teresa Madruga. O ator regressou ao nosso país por diversas vezes. Em 2015, foi um dos convidados de honra do Lisbon & Estoril Film Festival.

Em agosto, esteve em palco pela última vez, para ser o narrador da ópera "A flauta mágica", de Mozart, no Festival de Salzburgo, na Áustria. O seu derradeiro trabalho no cinema é "Radgund", filme de Terrence Malick que se encontra em pós-produção. v