Cinema

Cães preferidos de Isabel II dão origem a filme animado

Cães preferidos de Isabel II dão origem a filme animado

Já está nas salas "Cai na Real, Corgi" e o JN esteve a falar com o realizador

Rex, o cão da raça Corgi preferido da rainha de Inglaterra, perde-se da dona, tendo de sobreviver no mundo mais hostil que encontra fora do Palácio de Buckingham. Está dado o mote para o humor e a aventura da longa-metragem de animação "Cai na Real, Corgi", que nos chega da Bélgica, mas já a conquistar meio mundo. O filme já está nas salas, depois de ter tido honrasde abertura da Monstra, o festival de cinema de animação de Lisboa, altura em que estivemos a falar com um dos realizadores e produtores do filme, Ben Stassen.

Para nós, portugueses, e para quem não é especialista em raças caninas, é desde logo importante saber a relação exacta que o tema central do filme tem com a realidade. "Foi mesmo a rainha de Inglaterra que popularizou a raça Corgi", diz-nos o realizador. "Desde muito nova que tem vários cães dessa raça e por causa disso hoje em dia é tão conhecida. O último morreu há dois ou três meses, mas sempre houve vários no palácio. Há várias fotos dela rodeada de dez ou quinze cães."

Instituição tão querida pelos seus súbditos e respeitada por todo o mundo, a Família Real britânica não poderia ser desrespeitada, apesar de estarmos a falar de uma comédia em animação. Mas essa nunca chegou a ser uma verdadeira preocupação dos autores do filme. "O guião original já era bastante respeitoso", assume Ben Stassen. "No entanto, quando começámos a vender o filme, o distribuidor inglês queria ver o filme já completo, precisamente porque tinha esse receio. Mas não houve qualquer problema."

"Cai na Real, Corgi" não é uma produção norte-americana. Não nos chega dos estúdios da Disney, da Pixar ou da DreamWorks. O maior elogio que se pode fazer aos seus criadores, é que esse facto se torna irrelevante, dada a qualidade da animação e o humor refinado com que se desenvolveu a história. O filme chega-nos afinal de um país já com larga tradição na animação, a Bélgica.
Ben Stassen apresenta brevemente a sua companhia e como é que procedem para escolher os seus novos trabalhos. "O nosso primeiro filme foi Os Mosconautas no Mundo da Lua, em 2008", recorda. "E desde aí fazemos um filme por ano. Por isso, estamos sempre à procura de novas histórias e novos temas. Em alguns casos fomos nós mesmos que tivemos a ideia e a desenvolvemos de seguida. Aqui não, foi um guião que eu li, gostei imenso e comprei."

O filme, como grande parte das longas-metragens de animação que chegam hoje às salas de cinema, necessitam de agradar aos mais novos e, no mínimo, não aborrecer os mais velhos, os pais ou avós que compram o bilhete e têm de acompanhar as suas crianças. Atendendo aos excelentes resultados de bilheteira dos filmes de animação, o modelo tem tido sucesso.

"Longa de animação em Portugal? É preciso colocar a fasquia muito alta"

O realizador de "Cai na Real, Corgi", aponta na mesma direção, ao falar do seu novo filme. "A história deste filme pode agradar aos mais jovens, mas também aos pais", concorda. "Podemos ler esta história a dois níveis diferentes. A história dos cães, que agrada às crianças e depois há a família real, as questões do poder. O facto de se passar no Palácio de Buckingham também era interessante, para poder mostrar os seus bastidores."

Não se sabe ainda se Isabel II já pediu para ver o filme. A estreia em solo britânico só decorrerá é verdade em julho próximo, mas o sucesso está garantido. "O trailer já está disponível desde setembro e o sucesso foi fenomenal. Em quinze dias teve vinte milhões de visualizações", diz Ben Stassen, visivelmente satisfeito.

Outra das personagens que é facilmente reconhecida no filme é a de Donald Trump. O realizador conta-nos como foi a sua "inclusão" no filme. "No guião estava escrito apenas "presidente dos Estados Unidos". Como comprámos o guião dois meses antes, tivemos de esperar pelo resultado das eleições, porque podia ser Bill e Hillary Clinton ou Donald Trump e Melania. Nunca poríamos a cena da selfie se fossem os Clinton", remata.
Numa altura em que Portugal começa a estar no mapa dos países com incentivos fiscais à produção de filmes, o responsável pela produtora belga dá o exemplo do seu país, nomeadamente na área da animação. "Há muita atividade neste momento, sobretudo por causa do sistema de incentivos fiscais", refere. "Há muitas empresas de animação na Bélgica, mas a maior parte faz apenas prestação de serviços. Nós somos os únicos a fazer os nossos próprios filmes, do guião ao produto final. E somos os únicos no mundo, com a exceção dos estúdios americanos, a fazer um filme por ano."

A Bélgica e Portugal são países de dimensão semelhante, mas o nosso país nunca conseguiu estrear uma longa-metragem de animação, apesar da boa tradição no formato curto. Perguntámos a Ben Stassen que conselhos daria aos realizadores e produtores portugueses que se queiram meter nessa aventura. "Talvez possa ser um pouco desencorajador para os cineastas portugueses, mas o que é necessário é colocar a fasquia muito alta", diz-nos. "Porque somos constantemente comparados com os americanos. Não se pode ir ao mercado de Cannes ou de Berlim com uma animação se a qualidade não for muito alta."