Música

Cantor "folk" americano declara amor a Portugal

Cantor "folk" americano declara amor a Portugal

Mark Kozelek, cantor "folk" americano, declara amor total ao nosso país no novo disco, editado esta semana. Diz que quer comprar casa no Porto e que as suas cinzas sejam espalhadas na cidade quando morrer.

São muitos os motivos de orgulho para todos nós - a começar no título da canção, que diz de caras "I love Portugal" - mas o maior é mesmo para quem é do Porto: a dado passo, ele canta isto: "I love Portugal, I love Portugal, oh, oh / Particularly I love the city of Oporto".

Ele é Mark Kozelek, norte-americano do Ohio, 50 anos, cantor e compositor de folk rock, criador dos Red House Painters (1989 a 2001) e dos Sun Kil Moon (2001 em diante), que lançou esta semana um novo disco, "Common as light and love are red valleys of blood" - é um álbum mastodôntico e confessional de folk, com 16 canções que duram duas horas e nove minutos.

Mas é na pastoral "I love Portugal", cantiga sulfurosa e solar, que Kozelek retribui o nosso afeto - desde os anos 90 que ele é regularmente contratado para cantar por cá; "todos os anos lá vou, tenho sorte", diz ele com o exagero dos amantes. E são várias as certificações que nos dá da sua paixão: ouvir fado, comer bacalhau e sardinhas, presunto e caldo verde (Kozelek tem uma editora chamada, justamente Caldo Verde Records), "dormitar a ouvir pássaros a cantar", "ver o Douro a cintilar", "passar o dia tranquilo e calmo como passam sempre os portugueses" (depois ele dirá de nós: "eles não andam, eles deslizam"). E vai mais longe ainda, Kozelek: "Hei de comprar ali uma casa com vista para o rio do Porto" e "quando morrer, quero que algumas das minhas cinzas sejam espalhadas por ali".

Ao longo dos oito minutos crepusculares de "I love Porugal", o artista ainda descreve a violência do mundo e um concerto cancelado em Berna, na Suíça - nessa altura a canção ensombra-se e ele lê a nota de cancelamento do promotor do concerto - e aproveita, como bom americano democrata que é, para se queixar de Trump, "a huge fucking asshole". Canta ele: "Se vamos viver com um presidente que é um perfeito enorme imbecil/ Então acredita, baby, vou mesmo comprar uma casa em Portugal".

Que grande concerto em 2015

A última vez que vi Mark Kozelek ao vivo por cá (ele voltou o ano passado, ao Hard Club, e tocou no magnífico Amplifest, mas eu falhei esse festival), foi no Primavera Sound Porto 2015, na tenda negra da Pitchfork, ele vestido de preto, a ocupar o palco todo, a domá-lo com o fio do microfone, o peito alto, e ele a cantar as entranhas e a intensidade enquanto nos mostrava ali como faz para perseguir os dragões da sua escuridão. Foi dos concerto mais intensos do Primavera desse ano. E teve um bónus, ainda: ele chamou ao palco Yasmine Hamdan, uma esguia libanesa que tocara no palco ATP, e atirou-se literalmente a ela, à Yasmin, durante o dueto romântico "I got you babe", um original de Sony & Cher que fala das pedras e asperezas do casamento. Yasmine não sabia a letra, miou e corou, tentou fugir por onde pôde, parecia um cordeirinho a balir, mas Mark continuou a rondá-la, a dominar o palco todo como um pombo negro a arrulhar. No fim, Mark Kozelek disse que nós e o Porto somos o sítio favorito dele do mundo.

Este ano, o artista ainda não figura em nenhum cartaz dos 234 festivais de música que agora temos por cá. Há de voltar, não temos dúvidas - e ele certamente que também não - e todos haveremos de cantar em coro, todos inchados, o amoroso refrão e o "oh, oh, oh".

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