Memória

Casa de Sophia no Algarve à venda por 1,4 milhões de euros

Casa de Sophia no Algarve à venda por 1,4 milhões de euros

A moradia, situada na proximidade de Lagos, onde Sophia de Mello Breyner Andresen e a sua família passaram férias desde meados da década de 60, está à venda por um milhão e 400 mil euros.

Com uma área total de 5.160 metros quadrados, a moradia dispõe de sete quartos, seis casas de banho e três garagens com uma área útil de 314 metros quadrados. Na zona exterior exista uma piscina, court de ténis e uma churrasqueira.

"Esta acolhedora moradia serviu de lar e local de inspiração para a família de uma das maiores figuras da literatura portuguesa, que por décadas a usou como casa de férias e cujo nome foi dado à rua que nos leva até à propriedade", é possível ler-se no site da leiloeira Sotheby's.

A Casa da Meia Praia - assim designada por ficar a poucos metros da praia com o mesmo nome - inspirou vários escritos da poetisa, nos quais não faltavam referências ao "recorte das pedras sobre o mar" e à "luz mais que pura" que "quebra a sua lança".

Se, nas décadas de 40 e 50, as férias de família eram todas passadas na Granja, em Vila Nova de Gaia, a partir de 1961 Sophia escolheu o Algarve para o período de veraneio. Embora lamentasse "a falta de cheiro a maresia, a iodo", tinha "a grande vantagem do calor, dos dias quentes, de que gosto muito", recordou a escritora. A preferência recaiu sobre Lagos, "uma cidade meticulosamente limpa, cheia de gente honesta", nas palavras da autora de "Histórias da terra e do mar". As praias (sobretudo Meia Praia e Dona Ana) e o mercado eram os seus locais de eleição.

Nos primeiros anos, como lembrou mais tarde numa carta, a falta de conforto era notória: "Não tinha frigorífico, havia só uma geleira e um homem que vinha todos os dias, de carroça, trazer gelo.
Muitas vezes eu ia a Lagos a pé, às compras". Desse trajeto nasceu o poema "Caminho da manhã", um texto encantatório em que encontramos "pequenas ruas estreitas, direitas e brancas", "uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua" ou "figueiras transparentes e enroladas", cujos "ramos não dão nenhuma sombra".

Num artigo publicado no ano passado no "Diário de Notícias", o jornalista Pedro Sousa Tavares, neto da escritora, lembra que "nas noites de nortada, Sophia deixava-se ficar até tarde a cismar no seu 'escritório', um mezanino por cima da sala, na casa da Meia Praia, que os netos sempre encararam como o seu santuário privado, ainda que nunca o tivesse reivindicado como tal. Acendia os seus cigarros slim, que invariavelmente esquecia no cinzeiro depois da primeira passa, bebericava o seu chá, que parecia durar para sempre e nunca parar de fumegar e, com a portada de vidro entreaberta, passava horas a ouvir o vento a silvar entre os pinheiros".

As comemorações do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner passam neste sábado à noite por Lagos., com um percurso performativo intitulado "E a luz tornar-se-á Líquida: um poema para Sophia", que se inicia no Parque da Cidade, junto à teia.