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E Lana valeu sozinha por um dia inteiro de Super Rock

E Lana valeu sozinha por um dia inteiro de Super Rock

A cantora americana fatal deu um concerto sublime em comunhão com os fãs. Depois dela tudo pareceu pequenino num arranque muito tépido do festival. Pódio com 3 + 1: Glockenwise, Marlon Williams, Conan Osiris e certas canções dos The 1975. Revisão do 1.º dia do 25.º Super Bock Super Rock em que o pior foi Cat Power num concerto para ninar.

Lana entrou atrasada, foi a única do dia inteiro, 15 minutos de exasperação, tudo tinha começado sempre a horas, e não permitiu fotografias aos profissionais, como uma verdadeira diva. Mas nada disso importou: assim que ela entrou, 30 mil pessoas começaram a sonhar.

Ela chega ao palco já a cantar: "Não me deixes triste, não me faças chorar. Às vezes o amor não é suficiente, a estrada endurece, eu não sei porquê. Continua mas é a fazer-me rir". E continua a sublinhar: "Escolhe as tuas últimas palavras, esta é a última vez porque Eu e tu nascemos para morrer".

Lana Del Rey é a artista do glamour desusado, do decadentismo e dos conhecidos processos de criação que exploram uma estética ligada à sensibilidade, ao inconsciente e aos solfejos do coração que operam na realidade através da evasão.

E ela desce até ao pé dos mortais

Entrou acurada, fatal, linda de morrer: vestido curto sulfuroso preto, botas altas até ao joelho, cabelo solto, um risco de rímel longo na cara cheia de brancura. Aqueles refrãos eram só a primeira canção, são, é claro, de "Born to die", mas o público que enchia o recinto e que ali esperou, como esperaram muitas centenas dos da frente, mais de oito horas desde que entraram, recebeu-a logo em delírio. "Oh man!", diz ela na primeira vez que se dirige a nós, "muito, muito obrigado. Passamos hoje uma bela tarde aqui junto à água, a ver o castelo, foi maravilhoso passear, mas nada é melhor do que estar agora aqui com vocês". E o público grita, "Lana, Lana, Lana", e depois continua a chiar.

À quinta canção - foi outra fatalidade, a "Blue jeans" em que ela canta: "Eu vou amar-te até o fim dos tempos Eu esperaria um milhão de anos. Promete que te vais lembrar que és meu. Baby, tu consegues ver através das lágrimas?" - ela desce ao fosso e vai tocar nos fãs que se esticam todos a espigar pelas grades que a separam dela, as caras a vibrar. Tira selfies com os telefones deles, deixa que a beijem no flash, assina autógrafos, recebe presentinhos que eles entregam a tremer e ainda que continue a parecer uma diva, parece uma diva humana, humanamente extasiada. E isto tudo passa nos dois ecrãs gigantes que ladeiam o palco Super Rock em imagens de glorioso preto e branco.

Atrás dela está um quinteto bem-proporcionado com duas coristas e num ecrã gigante passam imagens saturadas em filtros coloridos, tudo em câmara lenta, cavalos a correr, diamantes a cair do ar, ondas do mar, ceús, desertos, arquipélagos perdidos, as palmeiras da Califórnia em planos contra-picados que deslizam repetidamente. Antes ela tinha cantado "Pretty when ypu cry" e cantou deitada no palco com as duas coristas a coreografar no chão com ela, os gestos repetidos como se fossem o espelho dela.

"És tu, és tu, tudo o que faço é para ti"

Tem uma bela voz, Lana, foi a segunda coisa em que se reparou depois de se reparar na beleza dela - não é só beleza, é uma sensualidade fatal, é uma forma de imortalidade -, uma voz em que as notas baixas são o seu recurso natural, conseguindo um arco impressionante de graves. Ligeiramente nebulosa, a voz cresceu com o tempo para se tornar mais sombria. E depois tem os tons intermédios, que são claros e agudos e lhe dão em paralelo aquele timbre juvenil.

Ao sétimo tema ela anuncia um medley para "Change", "Black beauty" e "Young and beautiful" que ela canta sentada numa cadeira de praia, as pernas longas estiradas, só um piano a acompanhar. Ao 8.º canta "Ride" e tudo parece decorrer em câmara lenta, até as duas coristas que agora andam de baloiço ao lado dela. E depois é ela que vai balançar e de cima do baloiço diz: "E agora, cantam comigo o "Video games"?". E o público entrega-se a ela, a derreter: "És tu, és tu, tudo que eu faço, é tudo para ti".

Ao 10.º tema há uma surpresa: "Doin" time", versão de uma música de 90 dos Sublime, a banda californiana de ska-punk e reggae-rock e que ela transforma num tema seu se ela fizesse trip hop. A seguir sobe o solene e solar "National anthem" e os fãs da frente, frequentemente mostrados no ecrã, cantam tudo, muitos parecem estar a rezar, olhos cerrados, todos suspiram, muitos choram ou fingem chorar. "Vocês são incríveis", diz ela e parece uma cascata a rir.

Haverá algo ou alguém capaz de a superar?

É uma fábrica de hits, Lana, 34 anos, cinco álbuns de estúdio desde 2010 e o sexto a caminho, vai chamar-se "Norman Fucking Rockwell". Depois vem "Summertime sadness", só faltam duas para acabar e o concerto há muito que atingiu a sua comunhão excecional. "Vocês são realmente elétricos, raios. Obrigado, obrigado", diz ela outra vez a rir, quase a gorgolejar. Sai agora "Off to the races", em que ela levita leve com um suspiro, e depois "Venice bitch" em que há um espectador que lhe levanta um cartaz que diz: "I"m your Little Meco bitch".

Ela ainda vai descer de novo ao fosso, isto é, desce ao chão dos mortais, há mais selfies, mais autógrafos, mais uns quantos que fingem, incrédulos, desmaiar. Em palco o som adensa-se, as guitarras picam, há jatos de fumo, os focos de cor ensandecem ao mesmo tempo, ela sai a acenar beijos para o ar e depois eclipsa-se. A banda vai saindo também, um músico de cada vez, até que fica só a guitarra e uma parede de feedback e wha-wha. Segundos depois alguém desliga a ficha e todos ficamos metidos num silêncio que caiu como um manto descomunal.

É muito difícil que o 25.º Super Bock Super Rock, que vai ainda no primeiro dia, hoje é o segundo, 19 de julho, e haverá Charlotte Gainsbourg, Phoenix e Kaytranada, é mesmo muito difícil que aqui se veja algo que se possa sequer aproximar disto que acabamos de viver.

Foi tudo um sonho? Sim, todos sonhamos simultaneamente ali com a visão de um belo animal sensual a cantar, o melhor que podíamos esperar, uma tremenda femme fatale.

O xarope Cat Power

O recinto do Super Rock regressado ao Meco está diferente, já dissemos, é agora um vale terraplanado retangular, as árvores foram todas entregues aos campistas, não há uma sequer sombra natural. E durante o dia a temperatura arcou nos 30 graus. Mas ganhou-se em fluidez e capacidade de circulação. O público parece ser o mesmo: Indies e freak chics, muitas adolescentes, jovens adultos, muitos - são mais elas - poseurs parados em todo o lado a fazer boquinhas para o Instagram. Mas a maioria, saude-se, ainda vem cá para ver concertos.

Antes de irmos aos melhores do dia, arrume-se já o pior: Cat Power. Afinal, Lana não se juntou à cantora de "The greatest" para o dueto esperado de "Woman" ao entardecer, e terá sido o melhor que Lana fez. O que ouvimos todos foi só Cat Power a secar ao sol. Sim, foi um concerto xaroposo de folk em quarteto empapado, a voz dela miada a derramar torpor, a música toda aplainada onde não era possível surfar, ideal só mesmo para adormecer. Foi uma xaropada que demorou algum tempo a desgrudar.

Ótimos, ótimos Glokenwise

Antes dela, um grupo português entregou no palco EDP o segundo melhor concerto do dia: os galgos de Barcelos Glockenwise. É rock crasso, ramoso, cínico e muito feliz, eles em sexteto vestidos de azul integral, que bela banda, que belo vocalista está Nuno Rodrigues, cada vez mais parecido com o melhor Bradford Cox. Mereciam, evidentemente, uma hora melhor do que as seis da tarde. Logo a seguir: Marlon Williams. É um alt-country aguçado em blues e voz dele operária de tenor. É um personagem galante mas com pinta de canalha, com um brinco a pender. Absolutamente assombrosa foi aquela sua canção "Vampire again", a que ele se entregou de forma carnal.

O cyborg Conan e os radiais The 1975

Por fim, duas meias surpresas. Conan Osiris, por um lado, teve a sua tenda Somersby cheia como um ovo. A ave rara da Eurovisão é o nosso fadista cyborg do trance etnográfico. Ele vestia um quimono púrpura folhado e tem cada vez mais fiéis na procissão. Disse ele a dado passo uma frase filosófica letal: "Ai estou tão contente por estarem tantos aqui comigo. O que haverá em mim que vocês veem de vocês?".

Do outro lado, e porque tocavam à mesma hora, mas no palco Super Rock, no extremo sul do recinto, os The 1975. São um quarteto synthpop de Manchester com um vocalista enamorado pelo vocoder, tiveram um portal cénico a radiar luz, e têm dois ou três singles extremamente calóricos e radiais: "It's Not Living (If It's Not with You)", "TooTimeTooTimeTooTime" e "Love It If We Made It". Não convenceram toda a gente - só a maioria -, nem convenceram o tempo todo, mas são uma coisa orelhuda boníssima de ouvir que nos deixa a todos encantados na idade mental dos 15 anos.

Sem pódio porque foi a sexta vez que tocaram em Portugal e o espectáculo, apesar de competentíssimo, é sempre igual: a frenética máquina funk dos Jungle.