Literatura

Escritores partilham emoções e os seus livros de cabeceira

Escritores partilham emoções e os seus livros de cabeceira

Quatro escritores, Valter Hugo Mãe, Rui Lage, Miguel Miranda e Adélia Carvalho, estiveram à conversa na primeira sessão de "E se a vossa cabeceira falasse?", da Livraria Lello, no Porto. E falaram sobre os seus livros prediletos. Manuel António Pina foi dos autores mais citados.

Manuel António Pina, vencedor do Prémio Camões 2011 e ex-editor e cronista do JN, foi o autor mais citado e elogiado no primeiro ciclo de "E se a vossa cabeceira falasse?", cujo primeiro ato arrancou ao final da tarde de quinta-feira, nos Armazéns do Castelo, no Porto.

Apesar da ausência dos também esperados Mário Cláudio e Álvaro Magalhães, a sessão decorreu descontraída e, até, divertida com Adélia Carvalho, Rui Lage, Valter Hugo Mãe e Miguel Miranda a protagonizarem uma conversa sobre os seus gostos literários. Os escritores explicaram de que forma os livros que leram ao longo da vida os influenciaram enquanto autores e enquanto pessoas, fazendo jus a Manuel António Pina, quando escreveu: "Os nossos autores são, em grande parte, isso mesmo, os nossos autores. Escrevem-nos. Tanto quanto, provavelmente, os escrevemos nós a eles".

"A Livraria Lello é uma casa de livros e dos seus leitores, mas também quer ser a casa dos autores. Estas sessões permitem a aproximação daqueles que fazem parte do universo dos livros - os autores e os escritores". Foi assim que a administradora da Livraria Lello, Aurora Pedro Pinto, iniciou os trabalhos.

O "calhamaço" de Ross Pynn

Miguel Miranda, escritor que venceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, em 1996, com o livro "Contos à moda do Porto", iniciou o encontro agradecendo à Lello "a bonita ideia de celebrar os autores". O escritor escolheu livros que tiveram relevo na sua infância e começou por falar de uma antologia de contos policiais de Ross Pynn, "um calhamaço que era do meu pai". Miguel Miranda considera que a literatura policial portuguesa deve muito a Ross Pynn, pseudónimo de Roussado Pinto.

Outro livro escolhido pelo autor foi "A terceira visão", de Lobsang Rampa. Miguel Miranda leu-o quando tinha 11 anos e afirmou, entre risos, que "Rampa é um autor esotérico e cheio de magia, apesar de ser um grande mentiroso, porque não tinha realmente conhecimento do Tibete [local onde decorre a história]". Questionado sobre se já teria voltado a ler esse livro, Miguel Miranda respondeu: "Não o leio há muito tempo, tenho uma boa imagem dele e não me quero desiludir".

"Um crime no expresso do oriente", de Agatha Christie, foi a última escolha do autor. "Há uns tempos revisitei este livro e interessou-me o facto de se passar em Alepo, na Síria, que agora é uma cidade completamente diferente e que tem outros problemas sociais", explicou.

D. H. Lawrence e todos os seres

"Trouxe estes livros, mas podia ter trazido muitos outros, bastava que as condições atmosféricas mudassem. Aqui há uns dias estive em Ribeira de Pena e até pensei em dar um saltinho ali ao lado e ir buscar livros a Cabeceiras de Basto... Porque os livros de cabeceira devem vir de lá", disse Rui Lage, divertido. "Os livros de cabeceira são os que ajudam a adormecer", mas o poeta escolheu outros para apresentar ao público.

"Birds, beasts and flowers", de D. H. Lawrence, foi um livro que "me influenciou muito quando comecei a escrever. É um livro que percorre todos os seres, da forma que menos se espera", contou Rui Lage.

Já os contos de Edgar Allan Poe "são de uma 'outridão' imensa, como diria Manuel António Pina. E abriram-me as portas para outro tipo de ficção", acrescentou. O poeta levou ainda para esta sessão os livros "As aventuras de Huckleberry Finn", de Mark Twain, "Terras do demo", de Aquilino Ribeiro, e "A cidade e as serras", de Eça de Queiroz.

A pilha de 20 livros de Valter

Sara Otto Coelho, mediadora da mesa de autores, questionou Valter Hugo Mãe: "Quão importante é ser-se leitor antes de se ser escritor?". "José Régio dizia que talvez não precisássemos de ler mais de dez livros, se fossem bem escolhidos, para sermos conscientes. Mas eu acho que precisamos de ler. Se calhar não conseguimos reconhecer um autor se ele não ler", opinou o escritor de 46 anos.

"A minha mesinha de cabeceira é tragicamente pequena... Mas a culpa é minha porque fui eu que a comprei. Chego a ter 20 livros empilhados, às vezes ficam mais altos do que o candeeiro e quando quero pousar os óculos em cima tenho de me pôr em pé. Por isso, mais do que ir buscar livros que me marcaram, fui literalmente buscá-los à minha pilha", contou Valter Hugo Mãe, que pôs a plateia a rir. "Mas agora arrependo-me. Emprestei-os à Livraria Lello e sinto a falta deles na minha mesinha de cabeceira", acrescentou.

Um dos livros que o autor trouxe foi "Fiat Lux", de Eduarda Chiote. "Caí de amores pelo livro. Ela é franca, frontal, sem sentimentalismo... A força dela impressiona-me", explicou.

Mas, afinal, quais foram os livros que marcaram Valter Hugo Mãe? "Se me tivesse portado bem teria trazido, sem dúvida, Frank Kafka, com os livros "O covil" ou "A metamorfose". Kafka marcou-me de tal maneira que li tudo o que havia traduzido", respondeu. Herberto Helder marcou-me antes que eu o pudesse entender e "O estrangeiro", de Albert Camus, perturbou-me demasiado e obrigou-me a crescer", acrescentou. "Depois de ler alguns livros, tenho vontade de ser outra pessoa", rematou.

"Há tantas coisas bonitas que não há"

Adélia Carvalho, escritora de literatura infantil, teve a última palavra na conversa e escolheu livros que a "marcaram ao longo do tempo".

"Há tantas coisas bonitas que não há: coisas que não há, gente que não há, bichos que houve e já não há, livros por ler, coisas por ver", disse a autora, citando um excerto do livro "O inventão", de Manuel António Pina. "O nosso Prémio de Camões [M. A. Pina] é o que me move para escrever, recorro a ele sempre que preciso, faz-me ver as coisas que há e que não há. Está sempre presente na minha vida", disse Adélia Carvalho. "Ele era uma pessoa que nos enchia os corações", acrescentou.

"O brincador", de Álvaro Magalhães, foi outra escolha de Adélia Carvalho que cresceu "com este livro" e entende que "devia estar sempre presente". "Quando for grande não quero ser médico, engenheiro ou professor. Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for. Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for. Quando for grande quero ser um brincador", explicou com um excerto do livro. "Não devíamos esquecer este brincador que há em nós", rematou.

"Gabriela, cravo e canela", de Jorge Amado, foi o primeiro livro da autora. "A minha família era muito pobre e eu não tinha livros em casa... Este livro entrou em minha casa pela televisão e ensinou-me o que é dar aos outros. Tenho um fascínio enorme por ele. E, por força do destino, mais tarde comecei a namorar com o Carlos [atual marido] através deste livro. Andávamos os dois a lê-lo e foi o mote para trocarmos mensagens", contou.

Apesar de também ter referido "Memorial do convento", de José Saramago, Adélia Carvalho considera "O filho de mil homens", de Valter Hugo Mãe, uma bíblia. "Este livro torna-nos melhores pessoas. Se o mundo fosse acabar, eu andaria com este livro na mão, feita louca, a dizer para o lerem", explicou divertida, fazendo referência a filmes americanos.

Livros expostos até dia 30 de março

"E se a vossa cabeceira falasse?" foi um desafio lançado pela Livraria Lello a escritores, artistas e cineastas, a quem foi pedido que selecionassem alguns dos seus livros prediletos, obras que marcaram presença nas suas mesinhas de cabeceira durante largos anos.

Algumas dezenas desses livros estão patentes numa exposição inaugurada no passado dia 13 de janeiro, aquando do 112.º aniversário da Livraria Lello, na Sala Gemma, o novo espaço da icónica livraria dedicado a primeiras edições, livros raros e de coleção.

As próximas sessões de "E se a vossa cabeceira falasse?" realizam-se nos dias 1 e 15 de março. A exposição da Sala Gemma está aberta ao público até dia 30 do mesmo mês.

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