Cultura

GNR: "Os primeiros 25 anos foram os mais difíceis"

GNR: "Os primeiros 25 anos foram os mais difíceis"

Os GNR lançam, esta segunda-feira, no mercado o novo álbum "Caixa Negra". Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão falaram, ao JN, sobre esta nova fase da banda com quase 35 anos de história.

Comecemos pelo título do álbum: A caixa negra dos aviões regista a voz das viagens. E esta caixa negra, é uma dessas caixas, ou mais uma caixa de Pandora que embeleza dentro de si um abismo esotérico?

Rui Reininho - Se calhar é um pouco tudo isso. Em conversa, consideramos este disco como o nosso "disco negro", um bocado como os Beatles, com o "Black Album", ou o Prince, por exemplo. Várias bandas tiveram assim álbuns mais negros. Foi mais pelas cores. Há muitas cores por aí (risos).

Vocês sempre beberam muita influência do "New Wave", por exemplo. Neste álbum, quais são as vossas principais influências artísticas?

Toli - Agora bebemos, se calhar, mais as experiências de vida. As influências vêm de tudo o que a gente ouve. Às vezes nem sempre é forçosamente o que se gosta mais. Mas a influência com o "New Wave" está sempre lá. Só que não é uma influência colada. É mais genuína, porque vivemos na época dela.

Jorge Romão - Não é um "New Wave" recuperado, como bandas que surgem agora a tentar soar aos anos oitenta.

Rui - Eu há pouco estava a ouvir a rádio e ouvi uma banda nova. Aquilo parecia Blondie. Era igual mesmo. "New Wave" mesmo.

Toli - A música para mim, profissionalmente começa aí, com o "New Wave".

Com mais de 30 anos de carreira, ainda há aquela paixão e o nervoso miudinho em cada novo concerto?

Toli - Claro que sim. Quando isso deixar de haver, acho que as coisas acabam. Já não há sentido continuar, sem prazer.

Foi o Rui que escreveu as letras deste álbum. Há uma inspiração mais a partir da experiência real de vida ou mais a partir da imaginação?

Rui - É conforme. É uma influência desde conversas que se ouve, e isso já vem desde o "Efetivamente" e do "Os Moscas". São coisas em que uma pessoa está na mesa ao lado a ouvir [as pessoas], e em consultas médicas, em transportes. Eu gosto muito de andar de transportes públicos porque acho que se apanha coisas muito engraçadas (risos). Confesso que de autocarro não gosto muito. Mas de metro e comboio... Sempre gostei de apanhar e aviões e helicópteros públicos também (risos). Inspiro-me muito no que ouço no dia-a-dia.

Na faixa "não há guerra" ouve-se "O caracol olha para a navalha e pensa: Só me corto se avançar." É uma metáfora do nosso Portugal atual, como um ser que é caracol por ter medo da dor?

Rui - Sim. Eu sempre achei uma imagem muito cruel, porque de facto, ele não consegue. Mesmo que esteja a ser cortado, vai por ali fora. E é a nossa maneira muito oriental de ser. Ser kamikaze e continuar a avançar e insistir no mesmo erro. Creio que em termos de carreira, nós cometemos vários erros. E se não aprendemos com os erros, é estupidez. Acho que se continuarmos a insistir nos mesmos erros, é um disparate.

Na faixa "Cadeira elétrica" ouve-se "liga a cadeira elétrica, sente a energia. Tudo funciona por magia". Há divertimento quando se vence a dor, é isso de que fala a música?

Rui - O quê, a dor da eletrocussão? (risos)

Jorge Romão - Sadomasoquismo? (risos)

Rui - Exatamente (risos)... Essa faixa foi inspirada no Show de porno, da Exponor, cá no Porto.

Toli - O Rui andava lá de gabardine e cachimbo (risos).

E na faixa "Desnorteado em 2015", recriação a partir de uma música do álbum "defeitos especiais", ouve-se"é natural que eu me sinta desnorteado/ no meio de tanta fruta podre". Que fruta podre é esta?

Rui - Realmente a fruta tem mudado. Agora é uma fruta normalizada. É uma fruta que não passa pelo amadurecimento, que é colhida crua, congelada, e depois apodrece sem sabor (risos). De facto, eu pessoalmente gosto mais da fruta 'bichosa', da fruta "bichona" (risos).

Nessa mesma faixa ouve-se também "abro na página quarenta, só me sai placenta". Na música de 1984, durante esse verso, ouve-se um som de arroto. E nesse álbum a música era mais acelerada, ao contrário desta nova versão, já sem esse som a "asco" pelo meio, e agora com um ritmo bem mais lento. Isto foi propositado, isto é, há uma ingenuidade ultrapassada e mais depurada nesta fase da vossa carreira, que não havia na altura da primeira versão da música?

Rui - Aprendia depois a não arrotar. Nesta o arroto foi censurado.

Toli - Esta versão foi feita quando saiu o nosso vinho. Nós temos um vinho que se chama "Desnorteado". E por isso achámos que era engraçado ter uma versão diferente. Aquela música não tinha muito a ver com o vinho. Tinha mais a ver com choques, ou uma coisa assim (risos). Depois surgiu a ideia de uma nova versão de uma música antiga.

Este é um álbum com várias variações de ritmo e de sentimento. Fala-se de sofrimento, de amor, há humor, sarcasmo, surrealismo e um despudor sentidos em cada faixa. Concordam?

Rui - O humor vai variando conforme o dia. Não acho que seja um disco nada monótono. Embora não tenha 15 ou 20 músicas, acho que todas elas são bastante diferenciadas dentro do mesmo género. O álbum tem muito a haver com nosso humor próprio

E em termos instrumentais, musicais, o que acham que está de diferente em relação aos anteriores?

Toli - É um bocadinho um regresso às origens. Para já não tem convidados. Somos só nós os três a tocar. Houve essa intenção de não recorrer a convidados, também porque este álbum é um investimento nosso (risos). Não foi só por isso, claro. Com certeza que teríamos amigos para convidar. Não quisemos descaracterizar o som, porque às vezes acontece haver convidados que tocam ou cantam muito bem, mas que podem descaracterizar as musicas.

E em relação ao público, acham que conseguem chegar aos jovens, do mesmo modo que chegam às gerações anteriores?

Toli - Sim, pelo menos há essa tentativa...

Rui - Mas também não é uma obsessão. Seria um disparate se quiséssemos roubar o público dos "One Direction"...

Toli -Ou da Violeta...

Rui - Seria um bocado patético tentarmos concorrer nesse campeonato. Cada macaco no seu galho.

E qual é o vosso campeonato?

Rui - Tem vindo a ser todo-o-terreno. Tem aparecido todo o tipo de gente nos concertos abertos. Nos concertos de auditório já vão pessoas que gostam de outro tipo de comodidade.

Toli - Mas também se vêm pessoas mais novas. Não vou dizer que sejam pessoas de treze anos, ou de quinze. Mas dos seus 20, 20 e tal, também.

Rui - Vai muita gente para aprender, também. Para tirar o mestrado (risos).

Ao longo destes últimos anos têm acompanhado a cena musical do país. O que pensam da música portuguesa: como era quando os GNR começaram e como é estado dela agora?

Jorge Romão - A música portuguesa está bem e recomenda-se.

Rui - Os contemporâneos tem quase todos agora uma coisa que é: tocam todos muito bem...

Toli - O que não é positivo é o mercado. O mercado não é favorável para as bandas.

Jorge Romão - Há pouco espaço para tocar ao vivo, por exemplo...

A internet tem influenciado a indústria da música?

Toli - Tem influenciado para bem e para mal. As editoras estão a acabar, por exemplo. Não há grandes apostas nas bandas nacionais. Os grandes patrocínios vão todos para os festivais. As bandas são um pouco asfixiadas por essas coisas que se fazem. Vem cá muita coisa boa, mas também vem muita porcaria. Os grupos novos atuam a custo zero. Há grupos que até pagam as despesas para estarem a atuar. É quase uma prenda estar no palco, e não devia ser assim...

Rui - E depois esses grupos dizem "Olhem que isto é uma honra"

Toli - E estamos a falar de marcas portuguesas que pagam esses festivais e que apoiam. Por outro lado, hoje em dia há uma divulgação mais fácil. A tecnologia de gravação, já com qualidade média, está ao dispor de qualquer um, com pouco dinheiro, na internet. Mas o mercado não corresponde a esse grande aumento de divulgação.

Tenho conhecimento de bandas novas que estão a começar o seu percurso, que já me disseram que, para atuar em muitos sítios, têm que pagar para isso...

Rui - Têm que pagar o que consomem, sim. E nem uma sande lhes dão para comer, muitas vezes. Eu ainda sou do tempo em que se ia à televisão e se ganhava qualquer coisinha (risos). É verdade. Na altura convidavam-nos e davam-nos 50 contos, por exemplo...

E hoje em dia, já não é assim?

Rui - Nem pensar. Mesmo os milhares de "artistas" que vão aos programas da tarde na televisão. Sei que alguns, para percorrerem o país, dão-lhes só uma ajuda para a portagem.

E o que é que estimam para o futuro, nesse sentido do mercado, da divulgação e da qualidade da música?

Toli - Uma pessoa tem que ser positiva e pensar que as coisas podem mudar. Pode ser que volte oura vez o Vinil. Não sei se passa por aí, ou se continuamos na evolução do streaming. Pode ser esse o caminho.

Jorge Romão - Às vezes é preciso não desistir logo à primeira.

Rui - Sim. Há gente que também está nesta coisa [da música] por moda e quando virem que "ah, isto já não dá para nada. Já não dá para arranjar mais namoradas", tentam outra coisa. A certa altura não se pode viver assim. Há músicos a passar muito mal.

Toli - Mas há intermediários de mais também. Pessoas que não têm nada a ver com a música, e que vivem à custa da música neste momento...

Rui - Os promotores de eventos, por exemplo.

Toli - Se calhar, se não ganhassem tanto, talvez isso fosse mais simpático [para os artistas].

Qual o Balanço que fazem do vosso percurso nos GNR?

Rui - Os primeiros 25 anos é que são difíceis.

Porquê?

Rui -Eu disse um número à sorte (risos)

Jorge Romão - Fica bem (risos)

Rui - Exato (risos). Nem toda a gente se pode gabar disso, não é? Há coisas um bocadinho patéticas, como aqueles grupos que dizem "agora fazemos 20 anos", quando já estão parados há dez. Eu também podia dizer que sou casado há 22 anos, não me tivesse eu divorciado há 14 (risos). Estar a comemorar uma coisa que não existe. Mas acontece muito. Mesmo lá fora.

Toli - Há um aproveitamento dos aniversários. Usa-se e abusa-se disso, para proveito do mercado. São poucas as bandas que tocam sempre, sem parar. No nosso caso, temos sempre discos originais, trabalhamos sempre.

Rui - Até percebo que custe mais as pessoas pensarem assim "Será que vou ver estes gajos ao coliseu?", porque nós temos estado aí sempre. Não paramos um único ano. Talvez resulte dar assim uma má notícia: "Atenção! É o último concerto deles, que estão todos com cancro terminal". (risos). Uma coisa sensacionalista dessas. Ou "Se vocês não vêm, eu mato-me" (risos). Bem, mas isso pode funcionar ao contrário, e não irem (risos).

Por último: há já concertos marcados para a apresentação do álbum?

Jorge Romão - Coliseus do Porto e Lisboa, 23 e 31 de Outubro. E temos mais coisas marcadas. Não tenho isso agora presente. Sei que há aqueles gajos que vão à televisão e que inventam "Ora bem, vão tocar aonde?". "Ora bem, temos muita coisa marcada...".

Rui - "Especialmente lá fora..."

Toli - "Um abraço para a Suíça e para o Canadá", dizem agora muito assim (risos)...

Jorge Romão - E "Nova Iorque" também (risos)...

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