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"Já não sou tão tímido em palco"

"Já não sou tão tímido em palco"

O músico irlandês Adrian Crowley regressa aos palcos portugueses na próxima semana, agora acompanhado por Nadine Khouri. À conversa com o JN, o cantautor diz que objetivo maior da sua música continua a ser "a exploração de novos territórios"

Dez anos depois, Adrian Crowley volta aos palcos nacionais. "Dark eyed messenger", álbum do ano passado todo ele construído em torno de confidências e sussurros, é o motivo do regresso, que vai passar pela próxima quinta-feira, dia 8, no Musicbox, em Lisboa, e na sexta, no Cinema Passos Manuel, com o indispensável contributo da libanesa Nadine Khouri.
Ao fim de 19 anos de carreira, este "'show man' tímido", como se define, garante que só quer que "a música nos ajude a tornar mais próximos uns dos outros".


Ainda se recorda da sua anterior passagem por Portugal?

Sim, claro. Foi há dez anos, no Porto, e estava acompanhado por uma banda inglesa.


Como foi?

Lembro-me de ter pensado que a plateia era fantástica. Foi muito especial.


Desta vez vem com a Nadine Khouri. O que é que ela traz ao espetáculo?

Temos tocado um par de canções juntos. Quando chegarmos a Portugal e a Espanha pode ser que consigamos cantar mais algumas. As nossas vozes completam-se muito bem. Além disso, temos espíritos muito parecidos.


A intimidade e a calma são conceitos fundamentais para percebermos a sua música?

Essas características estão muito presentes, é verdade, mas não sei se serão fundamentais para se perceber a música. A calma já faz parte de mim. Não vivo a correr... Para perceber a música é preciso gostar de palavras, histórias e do espaço entre as notas musicais.


Gosta de fazer da sala de espetáculos uma extensão da sua própria sala de estar? A música é tão acolhedora que parece convidar a isso.

Sim, acho que sim. Essa é uma definição muito boa. Qualquer que seja o tamanho da sala, gosto de pensar que a música contribui para nos tornar mais próximos, fazer do espaço à nossa volta um local ainda mais acolhedor. Quero que qualquer pessoa se sinta bem vinda.


Tem sido comparado ao longo dos anos a nomes como Bill Callahan. Nick Drake ou Tim Buckley. Como vê essas comparações?

São um elogio, claro. Trata-se de artistas fenomenais que são ou foram uma grande influência para mim. Admiro o seu trabalho. No entanto, o meu percurso é pessoal. Tento trilhar o meu próprio caminho.


A Irlanda sempre foi um alfobre de grandes músicas. Essa vitalidade continua bem presente?

Há tanto talento na Irlanda! Muitos artistas jovens de classe mundial. Em alguns casos, a música deles ainda não é conhecida fora do país. Há compositores muito talentosos, mas também bandas e outros géneros de artistas com grande potencial. É um período dourado para a música irlandesa. Mas ao mesmo tempo não é fácil conseguirem que a sua música chegue a muita gente, embora nem todos tenham a mesma ambição. Há muitos, por exemplo, que estão na música por puro amor à arte, sem se importarem em demasia com o que se segue.


É muito mais difícil ser-se um artista independente hoje, se compararmos com o que se passava há 20 anos, quando começou?

Sem dúvida. Hoje, acima de tudo, é muito mais difícil viver da música. É uma situação de que não gosto de falar muito porque remete para situações dolorosas como o dinheiro. Quando lançávamos um disco numa editora independente havia sempre vendas garantidas de, no mínimo, 20 mil exemplares. Agora, é muito difícil ir além dos dois mil. Isso teve um impacto gigantesco na vida dos músicos.


Os concertos passaram a ter outra importância para os músicos garantirem o devido sustento?

Sim. Gosto de dar concertos, mas há quem não goste. Também gosto de fazer música para filmes ou colaborar com outros artistas. Sou um artista flexível, como acho que os artistas hoje têm que ser. Sem que isso interfira com a integridade do artista.


Gosta da definição de "artista independente"?

Gosto. Mesmo que tenha uma editora e um agente, liga-me aos artistas independentes a mesma visão e vontade. No fundo de contas, sou eu que decido tudo.


Aprecia essa responsabilidade ou preferia focar-se no lado criativo apenas?

Continuo a estar focado no lado criativo. Quando alguém me sugere uma ideia, fico contente, Nenhuma decisão é tomada sem a minha autorização. A independência continua intacta. O segredo para conciliar esses dois lados, o criativo e o prático do dia a dia, é nunca parar de trabalhar. É o que eu faço. Trabalho aos fins de semana, à noite, a toda a hora.


Concorda que "Long distance summer", de 2007, foi marcante na sua carreira?

É verdade. Foi um marco, um período de mudança em que ganhei mais confiança, a minha escrita melhorou imenso e passei a ser mais requisitado para concertos. Dez anos depois, acho que voltei a ter a mesma sensação de ter ido mais longe, de chegar a novos territórios.


Sente que, com o recente "Dark eyed messenger", fez um disco ainda mais completo?

Um artista está em constante transformação, pelo que não é fácil comparar os discos, achar que um é melhor do que o outro.


Como é que vê a evolução da sua música através do tempos? As canções ficaram mais sombrias?

É uma boa pergunta. Acho que as músicas têm vindo a ficar cada vez mais luminosas. Sem falsas modéstias, tenho vindo a ficar um artista mais completo com a passagem do tempo, tanto nas letras como na composição. Controlo melhor as emoções. Estou um performer mais completo e não deixo de tentar chegar a novos territórios. Já não sou tão tímido em palco como era no início dos anos 2000, em que estava a afetar as minhas prestações.


Já se considera um 'show man'?

Serei sempre introvertido durante o concerto, mas agora penso que de uma forma mais aberta. Sou um 'show man' tímido, nunca um exuberante.


Tem raízes multiculturais: nasceu em Malta, mas viveu em França, Serra Leoa e Camarões antes de estabelecer-se na Irlanda. Acha que é redutor alguém considerar-se apenas de um determinado sítio?

Culturalmente, sou uma mistura de muitos elementos e influências. Sou um filho do mundo. Mas se tivesse de escolher um só sítio diria Irlanda, porque é lá que tenho vivido a maior parte do tempo. É a minha casa e é da Irlanda que tenho saudades quando estou fora.


O multiculturalismo é a chave para combatermos ameaças com que o mundo hoje se depara, como o terrorismo e os fundamentalismos?

Não sou muito político, mas para mim é óbvio que devemos ser abertos à Humanidade. Procuro sê-lo em tudo quanto faço. Vejo o Mundo como o lugar de uma só cultura.


Estudou arquitetura, fotografia e pintura. É a arte o que realmente o move, mais ainda do que a música?

É isso mesmo. A música chegou só naté mim depois de ter experimentado outras artes.


Continuam a ser artes importantes para si?

Sim, claro. Se alguma arte me sensibilizar de alguma forma, é sempre uma inspiração para a música. Sinto uma urgência de criar ao ser confrontado com arte.