Artes/Etc

"Jacaré" chegou ao Porto, mas não é preciso fugir

"Jacaré" chegou ao Porto, mas não é preciso fugir

"Jacaré" é a história de um guia turístico e de uma turista perseguidos por um jacaré que acabam presos em cima de uma árvore. Uma comédia em que o público ri do início ao fim, com António Raminhos e Abbadhia Vieira, em cena até esta quarta-feira, no Teatro de Sá da Bandeira, no Porto.

A peça foi inspirada na história real de uma família que ficou presa numa árvore durante um safari, na Austrália, por causa de um jacaré. António Raminhos e Abbadhia Vieira dão vida às personagens de "Jacaré", escrita e dirigida por Cláudio Torres Gonzava, que une assim o melhor de Portugal e do Brasil.

"Quando o Cláudio Torres Gonzaga soube que eu vinha para Portugal ele falou: 'Abbadhia há uma pessoa que eu conheço e acho que vocês vão combinar fazendo esse texto'. E assim foi, cheguei cá, conheci o Raminhos e começámos logo a trabalhar na peça", relembra Abbadhia Vieira.

A fazer teatro pela primeira vez, Raminhos dá vida a Afonso, um homem com 37 anos, que se divorciou recentemente e que trabalhou toda a vida num banco até que se apercebe que não gosta do que faz e está sozinho no Mundo, sem que ninguém se preocupe com ele. Por isso, decide arriscar e embarcar no mundo do turismo. É um homem humilde, que se preocupa com os outros e gosta de ajudar. O seu objetivo é ser notado, significar alguma coisa para alguém.

Lucy, como gosta de ser chamada, é interpretada por Abbadhia. Nunca foi casada, nem teve um relacionamento. Viveu toda a vida debaixo das asas dos pais, a fazer tudo o que fosse preciso para os agradar, deixando assim de brincar ou de ser irresponsável. Um dia, decide ir à Disneyland. Como os pais não aprovaram, deixou de falar com eles. É mimada, arrogante, gosta de ter sempre razão e é extremamente inteligente. O seu objetivo é deixar de ser perfeita, começar a cometer erros.

Durante pouco mais de uma hora, o público fica envolvido na história dos dois protagonistas. Presos em cima da árvore, começam uma discussão para saber qual deles se vai atirar ao rio para distrair o jacaré e qual merece sobreviver. Começa com um momento de tensão, em que discutem devido à difícil situação em que se encontram. Pelo meio, as coisas parecem melhorar, quando os dois se abrem e começam a falar das suas vidas, a partilhar problemas, inseguranças, revelando segredos e tornando-se cada vez mais cúmplices. Mas a partir de determinado momento só interessa saber qual deles é que se vai safar no meio de tanta confusão.

O cenário é muito simples: troncos de arvores no chão e algumas folhas penduradas, nada mais. A simplicidade acaba por dificultar os movimentos. "É muito difícil. Para mim que sou do teatro, que estou acostumada a quanto maior for o palco melhor, o desafio é maior", afirma a atriz brasileira. "Basicamente andamos ali a dançar em cima dos tronco", acrescenta Raminhos.

A peça que inicialmente ia chamar-se crocodilagem está em exibição até amanhã no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Por que é que deve ir? "Porque nunca mais vão ver. Talvez seja esse o melhor argumento", afirma Abbadhia. "Exatamente, nem eu sei quando é que volto a fazer algo do género. É agora ou nunca", concorda Raminhos. "É a oportunidade que as pessoas têm para ver esta dupla em palco neste formato", conclui Abbadhia.

Os bilhetes ainda se encontram à venda por 12.50 euros.

Primeira vez no teatro, primeira vez em Portugal

Rádio, televisão, YouTube, stand-up. António Raminhos é um nome muito conhecido do público português e estreia-se com a peça "Jacaré" no teatro. Em conversa com o JN, Raminhos revela que o processo de criação teatral é penoso. "No fim, é gratificante, mas é mil vezes pior fazer isto do que stand-up. Porque tem rotinas, há uma pessoa comigo em palco e aqui há uma disciplina... Não posso improvisar muito. E há sempre o medo de errar, que é muito maior do que no stand up. Mas acho que o meu medo de errar é maior pelo desconhecido, porque como nunca fiz teatro, não sei como é que é errar", explicou.

Abbadhia, apesar de mais habituada a fazer teatro, estreia-se em Portugal. Confessa que tem sido uma experiência maravilhosa."O público português é mais exigente do que o brasileiro... Exige que as coisas bobas sejam dispensáveis", disse. Apesar disso, revela que tem sido "muito gratificante" e que tem sido muito bem recebida. "As pessoas têm tido muito carinho comigo".

ver mais vídeos