Cultura

João Dixo: "Pinto por amar o que faço"

João Dixo: "Pinto por amar o que faço"

A pintura e o ensino da arte têm sido, ao longo de várias décadas, o modo de vida e, também, duas das grandes paixões. João Dixo, pintor e docente, inaugura, hoje, às 18.30 horas, na galeria do "Jornal de Notícias", no Porto, a exposição "Je t'aime/pintura sem importância", que reúne 26 obras, concebidas entre 2004 e este ano.

Porquê a escolha do título "Je t'aime/pintura sem importância" para a exposição?

As minhas exposições são feitas, de uma forma geral, à volta da pintura como razão. Entendo que a pintura deixou de ser um registo, uma informação e passou a ter razões em si própria, exactamente como a música, a dança e por aí fora. Portanto, como o tema a que recorro tem sido a própria pintura, desta vez, optei por "Je t'aime". Mas também há uma história por trás do título...

E qual é a história?

Quando tinha para aí 19, 20 anos, na altura em que comprei o meu primeiro livro a sério, de arte abstracta, havia lá uma imagem de um quadro que me ficou na memória. Nem era um quadro muito interessante, que até já nem lembro qual o seu autor, contudo, tinha escrita a palavra "Je t'aime", e a verdade é que essa frase ficou--me, e como ando à volta desses amores da pintura, achei que assentava bem. A minha pintura, tal como a sinto, a penso e a faço, é como um jogo de lego e "Je t'aime" é precisamente isso tudo.

O tema que envolve o seu trabalho, pelo menos o mais recente, permite que se entenda, por exemplo, que pinta por amor?

Pinto por amar o que faço, o que não quer dizer que, às vezes, não esteja farto, cansado de estar a pintar, mas isso é diferente.

Esta exposição integra fundamentalmente obra mais ou menos recente. O que pretende transmitir através da sua pintura?

Esta exposição é, por assim dizer, na realidade, uma mostra de pintura recente, uma espécie de diário através de um quadro ou de quadros. Utilizo a palavra "quadros", porque, quando se fala em pintura, o que nos vem à cabeça é um quadro e um quadro, actualmente, não é mais do que uma t'shirt, um pronto-a-vestir. E digo isto porque a pintura foi, durante imensos séculos, uma coisa, um fresco, um retábulo e era sobretudo informação que era colocada nos palácios, nos locais em que se fazia história. Hoje, não, porque se vai a determinadas ruas comprar um quadro.

E essa existência de ruas próprias para a exposição e aquisição de obras, de quadros, tal como existem os pronto-a-vestir de que fala, em sua opinião, é boa ou é má?

Julgo que a existência de sítios concentrados para a arte é bom, mas não faço, nunca faço, juízos de valor. Hoje em dia, algumas pessoas encomendam e mandam fazer quadros para a sua catedral, para a sua casa, porque, hoje, a pintura é um objecto. Mas, atenção, um bom quadro só pode ser de um bom artista. Faça-se um bom artista e teremos um bom quadro.

Há bons artistas, actualmente? E em Portugal?

Há, na medida em que haja dinheiro e há, sobretudo, nos sítios conhecidos, como, por exemplo, em Nova Iorque. A boa arte está onde as pessoas ficam notórias e as grandes cidades são palco propício para isso. Em Portugal, é óbvio que é em Lisboa e no Porto que estão os bons artistas. Na Serra da Estrela, não há, claro...

Os quadros que apresenta nesta mostra assentam, essencialmente, na cor. Preocupa-se mais com a forma ou com a cor?

Gosto muito de cor, mas preocupo-me com tudo, imenso, mas com tudo. O quadro só sai do ateliê se eu gostar muito dele. Na verdade, só quando existir clima para se pronunciar a frase "je t'aime".

Mas a forma também existe e vive nas suas telas. Há, aliás, formas, sinais, que surgem simultaneamente em vários quadros e muitos deles transitam de série para série, de exposição em exposição. Porquê?

Bem, procuro sempre, daí a minha pintura ser muito lenta, ando sempre a medir, a tirar, a pesar e a calcular. Na verdade, são formas que existem em exposições inteiras e já concebidas. Pinto corações, paletas, tubos de tinta... São símbolos que estão na minha cabeça e julgo que estão na cabeça de toda a gente. São, sobretudo, símbolos muito comuns no mundo da pintura e que formam o chamado objecto-quadro, que está também na cabeça de cada pessoa.

Essas formas estão na cabeça das pessoas?

Sim, na medida em que toda a pintura é decorativa. A minha é, ou, pelo menos, espero bem que o seja. Temos de ser claros: nunca porei um quadro meu, nem de ninguém, na minha sala se não achar que vai ficar lá bem e que dá bem, ao lado de um pechisbeque. Ou, então, terei de adaptar a sala ao quadro, o que é, naturalmente, mais difícil.

Assume-se como pintor decorativo?

Acho que toda a pintura é decorativa, toda a poesia é decorativa, toda a literatura é decorativa. O problema é que há para aí o conceito, errado, na minha opinião, de que é muito feio, muito baixo, ser pintor decorativo, quando toda a gente sabe que toda a arte é iminentemente decorativa, porque uma coisa é certa, funcional é que não é.

O que sente quando está perante uma tela? O que sente quando pinta?

Pinto porque não sei fazer mais nada. Hoje em dia, a pintura, tal como a vejo, não é comunicação. Os jornais, a televisão e a rádio é que se propõem comunicar. Um quadro é, deve ser, o contrário. Deve propor-se mesmo não comunicar. A pintura é, ou, pelo menos, quero que seja, um lego. Quero que seja um conjunto de peças que podem ser manipuladas pelo fruidor, de forma criativa. A pintura, tal como quero que seja, vai sendo o que as pessoas quiserem e puderem.

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