Cultura

João Pedro Marques: "A escravatura reapareceu em larga escala"

João Pedro Marques: "A escravatura reapareceu em larga escala"

O novo romance de João Pedro Marques, "Do outro lado do Mar", assinala a paisagens e períodos que lhe são muito familiares: o século XIX no então império português, quando a escravatura ainda era uma realidade no Brasil e em África.

Em entrevista ao JN, o autor de "Uma fazenda em África" lamenta que a escravatura tenha reaparecido em "larga escala" nos últimos anos, devido às "escravas sexuais, tráfico de crianças, gente vendida e usada, trancada em fábricas e armazéns e mantida viva apenas para trabalhar".

Depois da colonização em África, epidemia da febre-amarela e guerras liberais, escreveu um romance sobre a escravatura. O século XIX é um período inesgotável para si?

É a época histórica que conheço melhor. De qualquer forma penso que com "Do outro lado do mar" encerrei o século XIX. Não quer dizer que não volte a ele, adiante, mas o meu próximo romance será passado no século XX, no tempo da guerra civil de Espanha.

Sendo um especialista no tema da escravatura, podemos dizer que a pesquisa para este livro esteve facilitada?

Sim, mais facilitada. Estudei este assunto durante cerca de 30 anos, tenho uma boa biblioteca, um arquivo com cópias de documentos e tudo o que escrevi sobre a questão, desde livros a artigos na imprensa. E tenho, claro está, muita coisa na memória. Não me faltam depósitos onde ir buscar ideias e factos.

Mesmo tratando-se da sua "zona de conforto", em termos temáticos, foi surpreendido durante o processo de investigação ou escrita?

Durante a investigação não houve propriamente surpresas, mesmo quando li livros que nunca lera antes. Mas a escrita é um processo dinâmico e ao escrever surgem conexões novas, iluminam-se aspectos que até então tinham ficado obscurecidos. A escrita é enriquecedora e propícia à descoberta. E isso aconteceu de novo ao escrever "Do outro lado do mar".

Quanto mais conhecimentos adquire sobre a escravatura, mais se convence de que ela é/era intolerável?

Claro! Mas eu sempre estive convencido disso e acho que, aqui no Ocidente, todos nós o estamos. A classificação do tráfico de escravos como "crime contra as gentes" - pois era esse o conceito então usado - está consignada nas leis e tratados anti-escravistas, sucessivamente aprovados de há 200 anos para cá em todo o mundo ocidental e, o que é mais importante, está profundamente gravada na mente e na sensibilidade de europeus e americanos. O horror à escravatura faz parte da nossa cultura moderna, e mesmo quando ela ressurge, é entendida como um crime hediondo.

Só quando sai do país e se confronta com a escravatura é que o protagonista, Vasco Lacerda, se apercebe da iniquidade que ela representa. A aceitação da escravatura esteve também ligada ao desconhecimento da maioria?

De certa forma, sim. Quando presenciavam as coisas ao vivo as pessoas bem formadas impressionavam-se. Uma vez no Porto, em meados do século XIX, um escravo que era propriedade de um brasileiro, fugiu do navio onde viajava e conseguiu desembarcar. O proprietário quis reavê-lo mas a população opôs-se e criou-se uma onda de indignação nacional. A tal ponto grande que chegou aos jornais e o escravo foi libertado. Bom, isto era aqui, onde a escravatura já desaparecera e se considerava intolerável. Nas colónias era diferente. Sabia-se que a escravatura dos negros existia em África e no Brasil, mas as pessoas estavam dispostas a aceitá-la porque havia a convicção de que essa situação, apesar de ser horrível, era imprescindível para a economia dessas regiões. Os portugueses eram aquilo a que chamei "toleracionista"». Reconheciam a iniquidade do sistema escravista, mas percebiam e aceitavam a sua razão de ser nas condições do mundo. Achavam que não havia alternativa. Ora, há sempre alternativa, como veio a verificar-se durante o século XIX. Era apenas uma questão de opção e de perspetiva sobre as coisas.

Esta aparente permissividade ou cooperação das massas pode ser aplicada também a outros períodos históricos e realidades, como o nazismo?

Sem dúvida. As violências e injustiças começam muitas vezes por pequenas coisas, pequenos abusos, ovos de serpente, que depois se desenvolvem e avançam porque encontram uma complacência inicial. E o desenvolvimento do sistema escravista também pode ser entendido assim, tal como o nazismo que, aliás, e por triste coincidência, foi o maior utilizador de mão-de-obra escrava de que há registo. Há, no entanto, uma diferença muito importante. De início, o tráfico de escravos e a escravidão dos negros não eram entendidos como coisas ilegais ou criminosas em nenhuma parte do Mundo. Só começaram a sê-lo a partir de finais do século XVIII. Mas o nazismo praticou, desde a sua chegada ao poder, uma série de violências e de perseguições que eram vistas como crimes, tanto por alemães como por estrangeiros.

Podemos dizer que este é o seu romance mais próximo de "Uma fazenda em África"?

Sim e não. Este romance aproxima-se da "Fazenda em África" por envolver Angola e o Brasil e, também, porque põe em jogo um personagem como Gaspar, o negro que odeia negros, que é tão insólito e forte como Kpengla, a amazona do Daomé, uma das heroínas de "Uma fazenda em África". Mas, por outro lado, talvez se aproxime mais de "O estranho caso de Sebastião Moncada" por ser a história de um homem, Vasco Lacerda, que através do choque com a realidade, vai ultrapassando as suas hesitações e fragilidades interiores. Ou seja, trata-se de um percurso de auto-descoberta e de afirmação masculina que faz lembrar o de Mateus Vilaverde, o herói-problemático de "O estranho caso de Sebastião Moncada".

O que possui esse livro em especial, no seu entender, que faz com que continue a ser descoberto por novos leitores?

A África é um espaço que exerce um enorme fascínio sobre os leitores. Além disso, e para nós, portugueses, é um espaço carregado de história e de aventura, de nostalgias, também, e acho que consegui pôr tudo isso no Uma Fazenda em África.

Como é que um especialista em escravatura vê a crescente precariedade laboral dos nossos dias? Salvaguardando as devidas distâncias, estaremos no advento de novas formas de escravatura?

Vejo-a com enorme preocupação e já tenho escrito sobre isso. De todo o modo, em minha opinião, a precariedade laboral tem mais a ver com proletarização, com fragilização do trabalho face ao capital, do que propriamente com escravatura. A escravização em sentido estrito é um processo um pouco diferente que, infelizmente, também reapareceu em larga escala. Escravas sexuais, tráfico de crianças, gente vendida e usada, trancada em fábricas e armazéns e mantida viva apenas para trabalhar. Os abolicionistas de princípios do século XIX tinham a convicção de que a escravatura iria desaparecer de uma vez para sempre, substituída pelo trabalho livre e adequadamente remunerado. Verificou-se, depois, que tinham sido demasiado otimistas.

Começou a publicar apenas há cinco anos, mas os seus livros têm já uma marca muito forte, nomeadamente o rigor. É muito cioso e vigilante de tudo o que escreve para não defraudar os leitores?

Sim, sou! Sou-o por estrutura psicológica e por hábito profissional. Quando se escreve um livro de História (e eu escrevi vários, antes de ser romancista) é absolutamente imprescindível ser rigoroso. Os historiadores avaliam-se pela solidez e rigor das suas provas e afirmações. Os meus romances não são livros de História, são obras de ficção, mas mantêm uma ligação estreita com a época em que decorrem. É verdade que a linguagem dos meus personagens foi um pouco modernizada, não é exactamente a de Camilo, mas ainda conserva muitos arcaísmos e tudo o resto é muito autêntico. Quero que os meus leitores sintam e saibam que muito do que estão a ler aconteceu efetivamente. Quero que estejam lá, que sintam a época, as maneiras de pensar, o gosto da culinária, o toque das roupas, o cheiro dos navios a vapor, etc.

Em função do crescente reconhecimento dos seus livros, podemos dizer que é cada vez mais um escritor que por acaso também é historiador e não o seu contrário?

Acho que sim. A vida tem fases que se sucedem, campos que se encerram e outros que se abrem. Serei sempre um historiador, na forma como olho os acontecimentos e como os penso, mas agora estou numa fase da vida em que a minha escrita ganhou um novo rumo, um novo alcance, e em que me sinto sobretudo romancista.

Vai ser reeditado em breve o seu primeiro romance, "Os dias da febre". Como olha para este livro, à distância de cinco anos?

Olho com grande ternura. É um livro mais espontâneo, menos trabalhado, do que os seguintes, mas que foi escrito com muito entusiasmo e com muita paixão. É um livro muito febril.

Situar um romance nos nossos dias é uma possibilidade que lhe agrada?

Sim, faz parte dos meus planos. Aliás, já comecei a escrevê-lo mas agora está em stand by. Retomá-lo-ei adiante.

Quando o fizer, quer que as características que se associam aos seus livros se mantenha?

Não sei ao certo. Talvez isso escape da minha mão. Sem a História a guiar-me vai provavelmente ser outra coisa, outro registo narrativo.

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