Marés Vivas

Manel Cruz despido e ajoelhado para um público que não o podia amar mais

Manel Cruz despido e ajoelhado para um público que não o podia amar mais

Se pudéssemos emoldurar concertos, este seria o que guardaríamos para sempre na maior moldura. Ornatos Violeta regressaram para um público que não os podia amar mais.

Despido, ajoelhado, no fosso a abraçar fãs, Manel Cruz, esta noite, no Meo Marés Vivas, deu o espetáculo de uma vida. O público não o deixava ir embora. Voltou três vezes para uma "lambarice" que atravessou mais de uma hora e meia cronometradas em torno de Cão, O Monstro Precisa de Amigos e "Inéditos/Raridades". Coube tudo aqui e já restavam poucas para completar o reportório.

Ainda não tinham soado os primeiros acordes e já se gritava: "E salta Manel". Manel Cruz saltou e arrancou um concerto que vai ficar para sempre na memória. Saltou entre álbuns e pelo palco, e quando esbarrou em "Ouvi Dizer", os telemóveis ergueram-se e tomaram conta de um recinto repleto que carregava saudosismo. Foi aí que Carlão entrou para recitar a parte falada de um single que todos sabem de cor. Um abraço emocionado deu o arranque para "Casa", música que juntou Manel Cruz e Da Weasel, em 2004.

Os primeiros acordes de "Chaga" soavam e já o público delirava. Manel Cruz rendeu-se: tirou a t-shirt e elevou a guitarra para uma plateia que não o podia amar mais. Fazia das asneiras vírgulas e em O.M.E.M acabou ajoelhado no chão, num sorriso de olhos molhados para um minuto de aplausos. Em "Dia Mau" saltou desenfreado pelo palco debaixo de milhares que nem precisavam de o ouvir para cantar.

Anuncia uma homenagem "à maior banda do mundo" e ouve-se "Gone Daddy Gone" de Violent Femmes. Ornatos, uma banda despida do tronco para cima, ainda foi capaz de descer ao fosso para abraços e autógrafos. Por duas vezes. Fugiram e voltaram do palco três vezes. O público não os queria largar. Voaram baquetas quando Manel Cruz dizia: "Isto é uma cena muito lambareira". Ornatos deram tudo, a jogar em casa, a quem esperou horas por um momento que será eterno. E despediram-se num salto de lágrimas que não queria dizer adeus. Talvez não seja o fim.

Concerto de Mando Diao parou 45 minutos por problemas técnicos, mas acabou glorioso

Os suecos Mando Diao tiveram que interromper o concerto, pelas 22.25 horas, no segundo dia de Meo Marés Vivas. O vocalista e guitarrista Björn Dixgård tinha acabado de perguntar ao público se deviam continuar a festa, quando problemas técnicos lhes cortou o som no palco principal. Corriam apenas 15 minutos de espetáculo. Só voltaram 45 minutos depois.

Pela terceira vez em Portugal, o vocalista chegou de camisa branca de punho e cabelo lambido. Guitarra na mão e voz rouca. Ainda teve tempo de tocar Long Before Rock and Roll (2006) e You Got Nothing On Me (2009), quando as mãos se ergueram em resposta à pergunta: "É para continuar a festa?". Foi precisamente aí que ficaram sem som e abandonaram o palco, por problemas técnicos.

Björn Dixgård voltou às 22.50 horas e dirigiu-se ao fosso, de guitarra na mão, para falar com o fãs. Chamou o resto da banda, que carregou os instrumentos para baixo e começou a tocar para a fila da frente o êxito Dance With Somebody (2009), contagiando o resto das filas. Depois disso, abandonaram frustrados o palco dizendo adeus ao público. Parecia o fim de um concerto que mal teve tempo de começar, mas Mando Diao haveriam de voltar às 23.10 horas ao som de Mr Moon (2002).

Engataram com um novo single, One Last Fire, do novo álbum que vai ser lançado no final do ano. De copos ao alto, um público rendido em jeito de respeito, e Mando Diao oferecem Down In The Past, êxito de 2004. "Porto, Porto, Porto, Porto", gritava o vocalista antes de anunciar o fim com Dance With Somebody. Nem precisou de cantar, a plateia encarregou-se de uma tarefa que entoava em todo o recinto, até Björn Dixgård assumir a canção num adeus glorioso.

Em dia de aniversário, Carlão deu-nos Da Weasel

Antes, em dia de aniversário, Carlão deu-nos cheirinho de Da Weasel enquanto o sol se pôs, na segunda noite do Meo Marés Vivas. Num concerto de saltos que acabou com uma vénia, o reencontro com Manel Cruz, com quem lançou um single no último álbum, não aconteceu em palco. Mas Carlão prometeu, ao microfone, ficar para ver o regresso de Ornatos Violeta.

"Porto", gritou no arranque de um espetáculo que abriu com "Entretenimento" do álbum homónimo, de 2018. Quase não foi preciso aquecer um recinto que já estava carregado e Carlão nem pediu, mas o público cantou em coro "Agulha no Palheiro". Tocou o último disco e quando chegou aos Quarenta, álbum de 2015, "Os Tais" levou uma plateia inteira a gritar em uníssono. As mãos no ar eram constantes e até deu para "Bandida", single mais recente, lançado este ano. O hip-hop dominava, com Bruno Ribeiro ao lado, quando "Parabéns" se leu no fundo do palco. Já quase se tinha perdido a esperança quando a última música começou a soar. Era "Dialectos de Ternura", de Da Weasel. Foi o adeus perfeito.

A abrir o dia no palco principal, Don Broco chegaram ligados à ficha e levaram o palco principal abaixo. Foram a surpresa da noite, reinaram num concerto tão eletrizante quanto a camisola e as sapatilhas do vocalista Rob Damiani. "Olá Porto", gritava o britânico, que conseguiu pôr o público a fazer moche e a correr em rodopios. Saltou e vibrou do princípio ao fim de um espetáculo digno de qualquer festival de rock. Entre o álbum "Automatic", de 2015, e o último "Technology", de 2018, ainda subiu às grades para abraçar a primeira fila durante quase todo o single "Everybody". Em "Half Man, Half God", a música mais recente, brincava com a voz enquanto o guitarrista fazia autênticas espargatas no ar.

Foi a estreia de Don Broco em Portugal, embora já contem três álbuns. Damiani sentou o público no chão e contou até três para um salto que caminhava para um dos concertos da noite. Nerve (2015) e Come Out To LA (2018) deixaram o vocalista respirar para fechar com "T-shirt Song", enquanto parte da plateia tirou a t-shirt e a girou sobre a cabeça. "Obrigada por terem feito a nossa primeira vez aqui tão especial", despediu-se Damiani. E de especial teve que chegue.