Óbito

Morreu o fadista João Ferreira-Rosa

Morreu o fadista João Ferreira-Rosa

O fadista João Ferreira-Rosa, de 80 anos, intérprete de "O Embuçado", morreu este domingo de manhã no Hospital de Loures.

As exéquias do fadista João Ferreira-Rosa realizam-se na terça-feira, em Lisboa, na igreja de S. Sebastião da Pedreira, disse à Lusa fonte próxima da família.

O velório do fadista realiza-se na segunda-feira a partir das 18 horas, na igreja de S. Sebastião da Pedreira, sendo rezada missa de corpo presente na terça-feira pelas 14.30 horas, seguindo o funeral para o cemitério do Alto de S. João, onde se efetua a cerimónia de cremação, segundo a mesma fonte.

João Ferreira-Rosa era proprietário do Palácio de Pintéus, nos arredores de Loures, que fora propriedade da poetisa Maria Amália Vaz de Carvalho e que serviu de cenário a vários programas de fado, transmitidos pela RTP, em que participaram os fadistas Alfredo Marceneiro, Maria do Rosário Bettencourt, Teresa Silva Carvalho e João Braga, e os músicos Paquito, José Pracana, José Fontes Rocha, entre outros.

Iniciou carreira em 1961, quando atuou pela primeira vez na rádio, e gravou o primeiro disco, em que incluiu "Embuçado", que se tornou o seu "cartão-de-visita".

João Ferreira-Rosa, natural de Lisboa, afirmava-se monárquico e foi autor, entre outros, do poema "Triste sorte", que gravou no Fado Cravo, de Marceneiro.

Figura assídua das galas anuais Carlos Zel, no Casino Estoril, do seu repertório constam, entre outros, os fados "Os Saltimbancos", "Acabou o Arraial", "Fragata" e "Portugal Verde e Encarnado".

João Ferreira-Rosa fez toda a sua carreira cantando apenas fado tradicional, como realçou à agência Lusa o estudioso de fado Luís de Castro, autor de uma biografia de Fernando Farinha. "Nunca fez concessões, cantou sempre o fado tradicional, permanecendo fiel a uma escola que dignificou", disse.

Valéria Mendez, ex-professora do Conservatório do Funchal, e que colaborou na edição discográfica "Amália em Itália", saída em abril último, em declarações à Lusa afirmou: "Morreu uma luz vibrante do fado. Um mestre. Um fadista por excelência e de excelência".

A Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa defini-o como de "temperamento irreverente", que gostava de expressar as suas opiniões publicamente, nomeadamente a favor do regime monárquico, que se "afirmou como personagem singular no meio do fado de Lisboa" e com um "extremamente diminuto" percurso discográfico.

O seu último disco gravado em vida, no seu Palácio de Pintéus, nos arredores de Loures, foi um duplo CD, "Ontem, Hoje", editado em 1996.

Ferreira-Rosa afirmou à Lusa, numa entrevista, que não gostava de gravar em estúdio, justificando os diminutos discos. "Podia ter gravado mais até, mas aquela frieza dos estúdios apavoram-me", disse.

Além de dois CD antológicos, "Essencial - João Ferreira-Rosa" (2004) e "O Melhor de João Ferreira-Rosa" (2008), editou quatro outros álbuns, incluindo um de atuações no extinto Wonder Bar, no Casino Estoril, e cerca de dez singles e/ou EP.

O fadista estreou-se no programa "Nova Onda", da Emissora Nacional, mas a primeira vez que cantou foi aos 14 anos, em Santarém, no Teatro Rosa Damasceno, numa festa da Escola de Regentes Agrícolas de Santarém.

Em 1965, João Ferreira Rosa adquiriu um espaço em Lisboa, no Beco dos Curtumes, no bairro de Alfama, que se tornou A Taverna do Embuçado, que inaugurou em 1966, e por onde passaram nomes como Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Beatriz da Conceição, Artur Batalha, entre muitos outros, e que se tornou "uma sala de visitas de Lisboa". Após 20 anos à frente desta casa de fados, Ferreira-Rosa entregou a sua gestão à fadista Teresa Siqueira.

Em novembro de 2012 a Câmara Municipal de Lisboa entregou-lhe a Medalha de Mérito Municipal, grau Ouro.

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