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Músicos querem banir telemóveis dos concertos

Músicos querem banir telemóveis dos concertos

Há cada vez mais artistas e bandas a banirem a utilização dos aparelhos durante os espetáculos.

Já ninguém os dispensa. Nem mesmo durante os concertos. Para fotografar, filmar, enviar mensagens de texto, consultar o correio eletrónico, partilhar o momento nas redes sociais, navegar na Internet ou simplesmente telefonar, os telemóveis tornaram-se uma parte integrante da paisagem de qualquer espetáculo neste milénio. O fenómeno é por demais evidente nas alturas em que os artistas interpretam "o" tema pelo qual a assistência suspirou durante todo o concerto, transformando subitamente o recinto num infindável mar de pontinhos luminosos.

Se os circuitos pop e rock são aqueles onde é mais evidente esta tendência, já nem a música clássica escapa aos seus efeitos. Há semanas, o contratenor Rupert Entiknap interrompeu uma atuação em Londres por causa de um espectador que insistia em não largar o telemóvel...

Mas o que começou por ser um sinal de desagrado dos artistas perante o alheamento do público ou a obsessão em registar o momento, tornou-se, nos últimos tempos, num autêntico movimento contra o peso excessivo dos telemóveis. A proibição total do seu uso durante os concertos foi o passo seguinte.

E a divulgação da música?

Apesar de ser "uma solução demasiado radical, que sugere uma certa infantilização dos espectadores", como a apelida a cantora Ana Deus, há um número crescente de artistas ou grupos a adotá-la, em nome do regresso a um espírito de fruição do momento.

Guns"n"Roses, Alicia Keys, Jack White, Lumineers, Glenn Danzig ou o humorista David Chapelle estão entre os seguidores de uma medida que a generalidade dos músicos auscultados pelo "Jornal de Notícias" tem dificuldade em aprovar. Por muito que reconheçam, como David Santos, "a incapacidade crescente do público em focar-se por inteiro na música".

"Apesar de tudo, não consigo ser frontalmente contra o uso de telemóveis porque a partilha de uma imagem ou de um vídeo pode ser importante para divulgar a música", adianta o músico conhecido por Noiserv, que sublinha, porém, existir "uma diferença clara" entre quem "tira uma fotografia e quem filma o concerto na totalidade".

Uma "proibição ilegal"?

Miguel Guedes, vocalista dos Blind Zero, não tem pejo em reconhecer "os comportamentos abusivos" de quem não larga o telemóvel nos concertos, desrespeitando tanto os músicos como os espectadores vizinhos. Ainda assim, apelida a medida de "absurda" por "entrar na esfera individual". "É um ato censório, porque o artista obriga o espectador a ter determinado comportamento", adianta Guedes, sugerindo, enquanto jurista, que a medida, pelos fundamentos invocados, pode estar ferida de ilegalidade.

Se a história recente prova que os EUA são precursores em movimentos que rapidamente alastram pelo Mundo (como as medidas antitabágicas), neste caso em concreto as dúvidas são bem maiores. Até do ponto de vista cultural. O músico Tozé Brito é da opinião que em Portugal, tal como nos países do sul da Europa, o "controlo torna-se muito difícil", ao contrário do que acontece nas nações nórdicas. "Basta ver a forma como são ignorados os avisos sonoros antes dos espetáculos para desligar-se o telemóvel. Nos EUA, à mínima infração confiscam o aparelho e ponto final", sustenta.

Presidente da Associação Portuguesa de Festivais, Ricardo Bramão também desconfia da aplicação efetiva da medida. Sobretudo nos festivais: "É quase impossível controlar o seu uso num recinto onde as pessoas vão ver diferentes artistas".

Proibição de Jack White à prova no Alive

Nome maior do "indie rock" deste milénio, o norte-americano Jack White foi um primeiros ilustres a aderir à proibição do uso de telemóveis nos seus espetáculos ao vivo. Há vários anos que o fundador dos White Stripes vinha a expressar o seu descontentamento pela influência dos telemóveis no comportamento dos espectadores, mas só no arranque da mais recente digressão europeia é que se decidiu pela interdição total destes aparelhos nos seus concertos.

Num curto comunicado, White afirmou, dirigindo-se aos fãs, que "vão apreciar olhar para cima e experienciar música, assim como o nosso amor partilhado por ela, ao vivo".

Com novo álbum prestes a sair, "Boarding house reach", o aclamado guitarrista tem visita marcada a Portugal no Verão: é um dos artistas do Nos Alive, no Passeio Marítimo de Algés, onde atua no último dia do festival, a 14 de julho. Apesar de todos os esforços, o JN não conseguiu confirmar junto da promotora Everything is New se a proibição é extensiva aos concertos ao ar livre inseridos nos festivais.

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