Paredes de Coura

New Order valem "O ouro do Reno"

New Order valem "O ouro do Reno"

Depois de 14 anos sem dar concertos em Portugal, banda britânica monopolizou segunda noite de Coura.

Não há muitas bandas que possam usar com propriedade o prelúdio da ópera "O ouro do Reno", de Richard Wagner, no início do seu concerto. Os New Order podem, porque são das poucas iniciativas pop que se aproximam dos "cumes inacessíveis" da música erudita, como escreveu no início dos anos 1980 Miguel Esteves Cardoso a propósito de duas bandas: Joy Division e Talking Heads.

Ora, os New Order descendem da primeira, e logo após a passagem por dois temas do seu último álbum, "Music complete", prestaram tributo ao seu passado trágico e glorioso, ouvindo-se pela voz de Bernard Sumner as letras escritas pelo malogrado Ian Curtis há quase 40 anos - "She"s lost control" e "Transmission". Este é mais um daqueles concertos que fazem todos os anteriores parecer brincadeiras.

Antes dos britânicos, houve uma sequência de espetáculos de matriz rock com declinações diversas: o lo-fi expansivo dos Car Seat Headrest; a folk jovial e feminista de Stella Donnelly; e a dream pop robusta dos Alvvays. Mas foram os Khruangbin a assinar o segundo momento mais interessante do dia. Com o anfiteatro a enlear-se no crepúsculo, os norte-americanos serviram o seu caldinho psicadélico onde misturam funk tailandês, sonoridades afegãs e iranianas e dub jamaicano, além da sua visão particular do que é ser "hippie" no século XXI. Não pedem muito mais do que um ondular de cabeças, a sua música é compatível com o convívio, mas não é necessariamente inócua porque cria bem-estar.

Na véspera, os The National protagonizaram o concerto mais emocional do primeiro dia, levando as suas angústias ao público que os segue com fidelidade desde o lançamento do álbum homónimo, mas também a muitos que ainda estariam a gatinhar nesse ano de 2001. Talvez aquelas batidas sombrias, aquelas guitarras que parecem gritar e aquela voz soturna que por vezes se ilumina por detrás das sombras, tenham esse apelo intemporal, ou talvez sejam as letras, que falam de tudo aquilo que não pertence a épocas ou gerações, mas à condição humana. Tivesse o som trepado com a mesma intensidade por toda a encosta e poderíamos estar perante um dos candidatos a concerto do ano em Paredes de Coura. Mas as ondas sonoras pareciam refluir a meio do caminho, o que impediu uma adesão mais forte a quem se encontrava no topo.

Capazes de encher toda a encosta foram os Parcels, australianos que praticam um eletropop festivo e atento à realidade local, introduzindo num dos temas a voz gravada de Jorge Palma. Não inventaram a roda, mas meteram as fichas todas na agitação e conquistaram a plateia.

Suede voltam a Coura 20 anos depois da 1.ª vez

Vinte anos depois da sua primeira passagem por Paredes de Coura, numa edição em que tiveram a companhia de nomes como dEUS, Lamb, Gomez ou Mogwai, os Suede regressam hoje ao Alto Minho, trazendo na mala o recente "The blue hour", que o vocalista Brett Anderson classificou como álbum "húmido e perturbador". Banda central da "britpop" dos anos 1990, ao lado de Oasis, Pulp ou Blur, os londrinos deverão resgatar ainda os famosos temas de "Coming up" e "Head music" - registos que fixaram a via glamorosa e sensual da música dos Suede.