Literatura

Nuno Bragança escreveu com a vida toda dentro de si

Nuno Bragança escreveu com a vida toda dentro de si

Autor do marcante "A noite e o riso" nasceu há 90 anos. Dom Quixote publica edição comemorativa do 50º aniversário do romance

A vida e a obra de Nuno Bragança (1919-1985) foram breves, mas o seu impacto na literatura portuguesa foi bem mais prolongado. Com "A noite e o riso", publicado há meio século, deixou marca indelével. Até então, poucos romances tinham ousado ser tão livres e genuínos, ao abordarem de forma tão original a iniciação social, sexual e política.

No Portugal em mudança que começava já a espreitar sob a rigidez do Estado Novo, apesar dos tímidos avanços da chamada Primavera Marcelista, o livro foi acolhido com particular entusiasmo. Nas suas páginas encontrávamos tanto a experimentação formal como a liberdade poética, denotando influências que se inscreviam no ímpeto surrealista e nos esforços do "nouveau roman".

Nascido há exatamente 90 anos no seio de uma família da alta aristocracia, Nuno Manuel Maria Caupers de Bragança era já um nome bem conhecido da intelectualidade portuguesa antes de escrever o primeiro romance. Os seus primeiros textos literários foram publicados no final da década de 50 no jornal "Encontro", órgão da Juventude Universitária Católica. É nesse âmbito que integra o movimento do catolicismo progressista, ao lado de nomes com João Bénard da Costa, António Alçada Baptista ou Pedro Tamen, e ajuda a fundar a mítica revista "O Tempo e o Modo".

Já na década seguinte, em 1963, está ligado a um período decisivo do Novo Cinema nacional, ao assinar o argumentos e os diálogos de "Verdes anos", de Paulo Rocha.

Uma vida múltipla

Apesar do estímulo do primeiro livro, a escrita continuou a não ser o fim último da vida de Nuno Bragança. Sempre fez de tudo um pouco, desde a prática do boxe à caça submarina (de que foi um dos precursores em Portugal), ao empenho político e religioso, sem esquecer a forte atração que sempre sentiu pelos meandros da noite e pelos seus (des)encantos. Prova dessa intensa vida para lá da literatura é a sua obra relativamente escassa, composta ainda por "Direta" (1977), "Square Tolstoi" (1981), "Estação" (1984) e os póstumos "Do fim do mundo" e "A morte da perdiz" (peça radiofónica).

Se, em 2009, as comemorações do 80º aniversário do nascimento foram marcadas pelo documentário "U omãi qe dava pulus" e pela reunião de tudo quanto escreveu, incluindo inéditos, num único volume - "Obras completas 1969-1985" -, agora há a destacar a publicação pela Dom Quixote de uma edição comemorativa do 50º aniversário do celebrado "A noite e o riso". Mas há mais. Nas últimas semanas, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna tem vindo a promover um ciclo de leituras coordenado pela investigadora Vanda Anastácio que procura mostrar "a diversidade de temas, estruturas e, até, de estilos trabalhados por este autor".