Festival MIMO Amarante

"O fascismo voltou ao Brasil", diz Otto

"O fascismo voltou ao Brasil", diz Otto

É um dos mais inventivos músicos brasileiros dos nossos dias e regressa a Portugal no dia 20 para apresentar o novo disco, "Ottomatopeia", na edição deste ano do Mimo. Fortemente interventivo, Otto acusa os políticos da ala direita de promoverem um golpe de Estado e alerta para o risco real da perda de liberdade.

há muitos anos que não atua em Portugal...
Sempre quis voltar, mas, depois dos dois primeiros discos, senti que precisava consolidar primeiro o meu Hoje canto mais, Tenho segurança. Confiança no meu trabalho. O mais importante era consolidar o meu nome no Brasil. Queria aumentar o púbico e ter mais maturidade. Não forcei a barra para ir aí.

A primeira apresentação desse disco no final do ano passado, em Olinda, foi muito intensa, porque tinha acabado de saber da morte de um dos membros da música. Foi um dos concertos mais difíceis da sua vida?
Foi muito duro. Além de meu percussionista também era meu compadre. A minha vida tem sido pródiga nisso. Quando a minha mãe morreu também tive um show nesse dia. No ano passado, a morte do meu pai coincidiu com um concerto gigantesco que tive em Recife em pleno Carnaval...

Nessas alturas, como se coloca tudo para trás e se enfrenta uma plateia?
Temos que nos libertar. Nunca devemos perder o rumo do show. Tenho 50 anos. O profissionalismo está acima de tudo. Ali estamos a exorcizar uma dor. Eu vivo do público. Geralmente as pessoas choram e também me ajudam.

Passam este ano duas décadas sobre a sua estreia a solo, com "Samba pra burro". Como vê este percurso a solo já tão longo?
Se escutarmos o disco hoje, notamos que ele ainda é contemporâneo. Ainda não se fez um disco de eletrónica parecido. Acho que a minha carreira tem passado por tudo aquilo por que um artista deve passar em termo de aprendizagem. A experiência que fica é no sentido de melhorar sempre. Hoje sei muito mais.

Hoje explora mais as emoções e menos a eletrónica?
Venho de um país onde a canção é muito forte. Quando gravei o primeiro disco, o meu produtor na altura disse-me: "Agora senta-te e espera a música brasileira chegar". Eu não me sentei. Fui à procura dela (risos). Aprendi a cantar e a compor melhor. Hoje sinto que já tenho um bom legado. Fiz cinco discos de que não me arrependo nada. Sou um artista independente. Vim desse circuito e continuo sem fazer parte do 'mainstream'.

Mas hoje já chega a muita gente no Brasil.
Grandes plateias, é verdade. Perdi um pouco do impacto fora do meu país, porque me concentrei muito no Brasil. O meu carisma é muito brasileiro. Continuo a ser um artista independente, a ter liberdade para compor...

O que é ser um artista independente hoje?
É um artista que consegue expor-se, até politicamente. Vemos o que se passa hoje no Brasil e depois observamos o silêncio dos artistas 'mainstream'. Eles não falam porque não podem falar. Um artista independente é aquele que opera fora do mercado mas virado para o público. Sou um artista muito ligado às redes sociais. Tenho mais de 120 mil seguidores no Instagram e escrevo todos os dias.

Não teme que as observações políticas que faz nos seus concertos possam desagradar a alguns dos seus fãs?
Os 'caras' de direita, os 'reaças', não gostam de mim e eu não gosto deles. Não preciso deles. Há programas de TV, jornais, que não me chamam mais devido às minhas opiniões políticas. O meu discurso não é aquele que querem ouvir. O desprezo dos media pela minha opinião fez, por outro lado, crescer o meu número de seguidores nas redes sociais. Pessoas que estão contra este golpe e estão preocupadas com as injustiças que grassam no Brasil. Os mercados e os governos passam, mas nós ficamos.

Essa consciência política é recente?
Vem-se desenvolvendo com o tempo, mas sempre fui apoiante de Lula. Estou do lado de Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil... A música é um fator crucial de pensamento político. Estou do lado dessas pessoas. Muitas delas são hoje minhas amigas.

A liberdade artística está em risco?
Artisticamente, a política nada pode fazer. Mas a letargia social e o acomodamento são prejudiciais. Nas artes plásticas e no teatro já há perseguições no Brasil. Espero que não evolua para a música. Se o Bolsonaro (candidato da ) ganhar, a vida vai ficar bem dura. Portugal sabe bem o que é isso, pois viveu muitos anos sob ditadura. O Mundo também sabe o que é o globalitarismo. Com o advento da Internet e das redes sociais, temos motivos para estarmos mais otimistas.

Cada vez gosta mais de canções que "disparam contra o tempo", como diz numa das letras do disco?
Estive cinco anos à volta desse disco, até que se deu o 'impeachment' de Dilma Rouseff, uma mulher honesta, e eu senti que era altura de voltar a compor. O disco fala disso tudo. Só que não sou panfletário. Prefiro muito mais falar da emoção e da tortura. É muito ruim quando acontece o rompimento democrático. A justiça e os media refletem isso. Quando se dispara contra o povo, o ricochete acontece sempre. Mesmo que possa demorar. Espero que haja eleições este ano. Os que lá estão prometeram que ia haver mas duvido. Se não houver, a coisa vai ficar feia.

Acredita na libertação do Lula?
Mesmo preso, ele já está a libertar muito. Está a dar um nó na justiça brasileira. Acredito piamente que tem que ser libertado. O julgamento foi mal feito. Estão a passar por cima de tudo para mantê-lo preso. Ele já é um exemplo de liberdade. A sua prisão é arbitrária. Estamos a falar do melhor presidente de sempre do Brasil. Em oito anos não teve um escândalo. Tiveram que arranjar uma história mal contada da oferta de um apartamento para condená-lo. Se não for libertado, as pessoas deixam de acreditar na justiça. Quanto mais tempo o prenderem, mais ele sobe nas sondagens. É um absurdo o que lhe estão a fazer. É a vingança do povo da direita, que não suporta os avanços sociais que ele promoveu. A direita é terrível! Nunca esperava que o Brasil voltasse ao fascismo.

A sociedade está dividida.
A elite não gostou da igualdade que os anos de Lula trouxeram. É difícil para um cara rico ver um filho de um porteiro na mesma faculdade

O que o inspira hoje como artista mudou muito em 20 anos?
No início só sonhava em ter uma carreira. Era um sonho de criança. Hoje o que me inspira é o sentimento. É ter paciência. Saber que há muita gente te escuta. Mudei muito há 13 anos com o nascimento da minha filha.

Sereno no íntimo, mas inquieto politicamente.
Tem que ser. O mal da esquerda foi ficar calma demais. Ter feito o Mundial (em 2014) também foi um erro. Deviam ter construído casas com esse dinheiro.