1922-2019

Os mundos de Agustina Bessa-Luís

Os mundos de Agustina Bessa-Luís

Aquilino, Pascoaes e Ferreira de Castro foram os primeiros a reconhecer o talento da autora de "Mundo fechado". Frieza e resistência inicial do meio literário apenas foram vencidas com a publicação, em 1954, de "A Sibila".

Situar a data exata em que nasceu Agustina Bessa-Luís, a escritora, talvez seja tarefa condenada ao fracasso: sem a influência das inebriantes paisagens do Douro ou do sólido núcleo familiar, é provável que a sua vida tivesse seguido outro (per)curso, como, aliás, repetiu sucessivamente em várias entrevistas. Há, porém, um momento fixado no tempo que terá sido decisivo para a consolidação da vontade de entrar no mundo das letras. Quando o pai se acercou de Agustina, então com 15 anos, e lhe passou para as mãos "A selva", de Ferreira de Castro, definindo-o como "o melhor livro de um escritor português", a jovem, concluída a leitura, emitiu um comentário que em circunstâncias normais poderia ser acusado de arrogância extrema: "Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português".

A crença ilimitada nas suas capacidades não mais a abandonaria. Ao publicar "Mundo fechado", Agustina estava "tão segura, tão segura" do valor do seu livro inaugural que enviou quatro exemplares aos maiores nomes da literatura portuguesa da época: Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga. Os dois primeiros enviaram-lhe de pronto cartas de entusiasmo, celebrando o nascimento de uma grande autora, enquanto que a missiva de Pascoaes, também elogiosa, extraviar-se-ia sem explicação, pelo que Agustina só teve conhecimento da mesma após a morte do autor de "Marânus". Foi a reação seca de Miguel Torga - acusando apenas a receção do livro, sem tecer quaisquer considerações acerca do conteúdo - que mais desiludiu a jovem romancista, o que não impediu que, anos mais tarde, se tivessem tornado amigos.

Ascensão e glória

Não foram fáceis os primeiros anos literários da autora de "A quinta essência". Embora "Mundo fechado" tenha sido saudado pelo público e por parte substancial da crítica, as resistências, mais ou menos explícitas, a uma obra que sempre preferiu a análise clarividente da natureza humana às condições circunstanciais da época logo se fizeram sentir. Envolto numa disputa acesa entre os cultores do neorrealismo e os defensores do modernismo do movimento da "Presença", o meio literário esforçou-se por não reparar numa jovem aspirante que propunha caminhos alternativos às estéticas dominantes.

"A qualidade de Agustina demorou muito a ser reconhecida. Vivia-se ainda o tempo da "literatura engajada" e os cultores do realismo socialista olhavam-na de esguelha", afirma o escritor Manuel Poppe, que com ela conviveu desde o início da década de 60.

Por muito intensa que tenha sido a vontade da "inteligentzia" de minorar a importância de Agustina, tal tarefa tornou-se impossível a partir de 1954, o ano da publicação de "A sibila".

O romance, com o qual Agustina venceu os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queirós, representou a afirmação definitiva da carreira de Agustina. O estilo caudaloso e frequentemente labiríntico não representou apenas um desafio para os leitores, a tal ponto que criou lendários anticorpos entre os milhares de alunos para os quais o romance era de leitura obrigatória. Os próprios ensaístas dividiram-se na classificação exata do livro: produto da terceira fase do modernismo português ou um exemplo perfeito das possibilidades ao dispor do movimento neorrealista?

Indiferente a tais questiúnculas, a escritora sempre acreditou que "não há melhor destino para uma obra do que ser apelidada de austera e difícil".

"Inteligência contagiante"

A preocupação pela condição social e cultural do seu país - com as incursões no passado, tanto através da ficção como da problematização do conhecimento histórico - nunca a impediu, porém, de perseguir um cunho mais universalista. Pelos seus livros perpassam os desejos e as ambições do dia-a-dia mas também as invejas e as intrigas que habitam em cada ser. Os paradigmas éticos intemporais atravessam uma obra que, como sublinha a ensaísta e professora universitária Silvina Rodrigues Lopes, autora do livro "Agustina Bessa-Luís: as hipóteses do romance" (Edições ASA, 1992), que revela "uma escrita que produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor e abertura de múltiplas hipóteses, também elas sem outra legitimação que não seja a que adquirem na sua própria prática".

As leituras

Se foi com o "Jornal de Notícias" que aprendeu a ler ("de manhã, chegava o "Jornal de Notícias", ainda com o cheiro de tinta de impressão; e eu, que tomava o meu chocolate à espanhola, olhava para as figuras com a ambição de lhes dar nomes e história. Aos cinco anos já podia decifrar tudo o que o jornal dizia em silêncio, mas com acentos que eram como vozes", escreveu a autora numa crónica publicada no JN, em Março de 2006), depressa as suas leituras começaram a abarcar também os grandes nomes da literatura francesa e russa.

A relação com a obra de Dostoievski ou Stendhal foi tão absorvente que teve como consequência mais imediata o isolamento, lamentado pela própria em declarações recentes, porquanto a privou de um convívio mais intenso com os familiares.