Cinema

"Os povos indígenas estão sob a ameaça real de perder as suas terras"

"Os povos indígenas estão sob a ameaça real de perder as suas terras"

João Salaviza e Renée Nader Messora realizaram "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" no seio da comunidade dos índios Krahô, no norte do Brasil. Premiado em Cannes, o filme chega agora às salas de estreia.

Um jovem de 15 anos é chamado pelo espírito do pai, de quem tem de fazer o luto, para que este viagem em paz para a aldeia dos mortos. Resolvendo partir com a mulher e o filho para a vila mais próxima da sua comunidade, este índio descobre que aquele não é, de todo, o seu mundo. "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos" é um filme de esmagadora beleza e sensibilidade, que confirma o enorme talento de João Salaviza, que corealizou o filme com a mulher, Renée Nader Messora, que já passara oito anos a trabalhar com esta comunidade.

O filme foi lançado em Cannes, onde foi muito bem recebido. Mas muita coisa se passou no Brasil desde então...

João Salaviza (JS) - É verdade que historicamente os povos indígenas sempre foram silenciados, isso foi transversal a todas as formas de governo e de regime desde a invasão dos portugueses no Brasil em 1500. Mas este governo do Jair Bolsonaro é provavelmente o primeiro abertamente anti-indigenista, etnocida e abertamente negacionista em relação às alterações climáticas que estão a afectar todo o planeta.

Isso já está a afetar esta comunidade?

JS - Todos os povos indígenas estão sob uma ameaça real de perder as suas terras, de verem cancelados ou anulados alguns dos direitos que, através de muito sangue, foram conquistados nas últimas décadas, e a situação dos Krahô não é diferente. Ninguém sabe muito bem o que pode acontecer nos próximos quatro anos, mas ao mesmo tempo há uma resistência fortíssima, que sempre esteve presente, é uma resistência com 500 anos.

Têm estado em contacto com os Krahô?

Renée Nader Messora (RNM) A nossa relação já vem sendo construída há muitos anos e o filme não encerra nem começa o ciclo da nossa relação. A situação tende a ficar muito mais violenta. A situação era mais ou menos intermediada por um Estado que dizia que as terras indígenas tinham de ser respeitadas, agora temos um estado dizendo exatamente o oposto. Os fazendeiros que vivem em volta da terra indígena e no Krahô isso é muito claro, sentem-se no direito de atacar e de ameaçar ainda mais do que já vinham fazendo.

Qual foi a génese deste projeto?

RNM - O "Chuva..." vem de um longo percurso. Eu na verdade já estava na aldeia há muitos anos, já desenvolvia um trabalho audiovisual, que tinha que ver com a valorização cultural da comunidade. O João chegou um pouco mais tarde. Num primeiro momento a nossa ideia era estar na aldeia a continuar a desenvolver esse trabalho que eu já fazia, mas as coisas foram-se desenhando e veio essa vontade de filmar. Teve uma história que aconteceu com um menino da aldeia que foi efectivamente o ponto de partida para o "Chuva...".

O que aconteceu nessa história real?

RNM - Um garoto muito jovem tinha um bebé e uma esposa e estava sob o efeito de um feitiço. Achava que se ficasse na aldeia podia morrer. Então fugiu para Icatajá, mas essa conexão entre espírito e corpo, que para os Krahô é tão óbvia, na cidade não é. Na cidade nunca souberam como tratar esse menino e ele voltou para a aldeia.

Como é que escolheram o protagonista da vossa história?

JS - O Ihjãc é um rapaz que nós conhecemos desde criança. A Renée conhece-o desde que ele tinha 6 ou 7 anos de idade, eu conheci-o um bocadinho mais velho quando cheguei depois. É um menino que também participava num grupo de cineastas indígenas da aldeia de Pedra Branca, que têm filmado processos comunitários e os rituais e festas e são inclusivamente chamados por outras aldeias.

Como é que ele reagiu à câmara de filmar?

O Ijhãc acabou por se entusiasmar com a ideia, ao mesmo tempo que nós nos íamos entusiasmando com a possibilidade de o filmar. Depois, quando ele se torna o protagonista do filme, acaba por trazer consigo todo o núcleo familiar e é isso que enriquece muito o filme, com a presença da mulher, do filho, da mãe, dos tios. Depois, durante a rodagem, o Ihjãc foi talvez o primeiro a perceber esta lógica do cinema, de se filmar em dias diferentes, de se filmar fragmentos que depois através da montagem são unidos e ganham um sentido.

O filme acaba por se encaixar na perfeição no seu universo, muito ligado à adolescência e à passagem ao estado adulto.

JS - Sim, embora no contexto Krahô as fases etárias obedecem a critérios muito diferentes dos nossos. Um rapaz de 15 anos como o Ihjãc, numa aldeia Krahô, pertence já ao mundo dos adultos. Participa nas reuniões diárias que acontecem no centro da aldeia, tem um filho, cuida da casa, caça, vai buscar palha para cobrir o telhado antes da chuva. Ele está integrado no mundo dos adultos, já largou a infância,.

O filme tem sido muito bem recebido em todo o mundo...

RNM - Eu adoro o nosso trabalho, acredito muito no filme, mas não conseguimos nunca desvincular o nosso olhar de uma tradição branca, judaico-cristã. Há imagens que estão sendo produzidas em terras indígenas no Brasil que efectivamente podem trazer coisas novas. O que nós queremos é abrir o mais possível esse leque de imagens.

JS - É muito importante pensar que um filme como este, por muito que tenha a sua importância, por muito que se tenha um filme falado numa língua indígena que tem apenas 3500 falantes a ser exibido num espaço de legitimação como o Festival de Cannes e entrar no circuito comercial, é apenas um pequeno passo.

Como é que são esses filmes que estão a ser produzidos neste momento no Brasil?

JS - Estes filmes, que têm muito pouca visibilidade, são muito provocadores e lembram-nos também todos os equívocos que existem historicamente no encontro entre a Europa e os povos ameríndios. Estas imagens devem ser vistas, para bem da nossa riqueza intelectual e limpeza e descolonização do olhar. Gostaria de salientar que vai começar uma mostra de cinema ameríndio na Gulbenkian. Vão estar cinco cineastas e lideranças indígenas em Lisboa. É um encontro inédito e histórico, pelo menos em Lisboa.

Já há algum novo projeto em marcha?

JS - Estamos ainda na fase de pensar um pouco como é que vamos voltar a filmar. Obviamente que o contexto actual do Brasil, com a eleição de Bolsonaro e este espírito anti-indigenista muito presente, também nos afecta enquanto sujeitos e sentimos que devemos ter um papel enquanto realizadores nestas lutas que aí vêm. A responsabilidade é maior ainda daqui para a frente. Mas sabemos que vamos continuar, com ou sem cinema, a estar perto dos Krahô.