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Paredes de Coura: "Aqui descobrem-se cenas, foi sempre assim"

Paredes de Coura: "Aqui descobrem-se cenas, foi sempre assim"

O "grupo de jovens do concelho de Estarreja" - apresentam-se assim, irónicos, são cinco rapazes e uma menina, todos na casa dos 23 anos - distraiu-se e só veio no sábado pôr a tenda.

"Erro crasso", diz o Renato, que quando não está aqui a meter garrafas de vinho branco no barco de borracha atufado de gelo, está a tirar um mestrado em biotecnologia alimentar. "Crasso, devíamos ter vindo antes, já não conseguimos um bom lugar e sombra nem pensar". Verdade e consequência: "Assim que o sol abrir, não se vai poder aqui dormir com o calor" - e, pior ainda, talvez eles tenham que se levantar cedo.

50%, ou mais, dos espectadores do 24.º Vodafone Paredes de Coura, o festival indie que este ano tem como atração o punk-dance de LCD Soundsystem, mais de metade desses espectadores já cá está e os diligentes vieram cedo guardar lugar.

Fizeram assim os mais velhos, os do grupo de Jorge Marques, 40 anos, de Braga - "somos uns 20 ou 30", diz ele a torcer o nariz às nuvens que ontem de manhã e até meio da tarde coaram o céu de Coura, deixando cair a morrinha que salpicou de pó o planetário de cores cacofónicas do campismo do festival.

"Fomos os primeiros a montar o barraco, ainda não estava cá ninguém, já viemos dia 26", diz o Jorge, orgulhoso da previdência e do seu lugar. É um condomínio de tendas, 12, todas postas à volta de um toldo com uma mesa corrida de comer.

Tratam-se bem, são minhotos, dois grelhadores, caixa de lenha, vinhos, cervejas, "hoje já marchou uma pá de porco e amanhã sai caldeirada de peixe", diz Humberto, chef do acampamento. Têm outra peculiaridade, os bracarenses, "estamos aqui seis gerações, o mais novo é o Tuca, 18 anos, o mais velho sou eu, sou Fernando, tenho 62", diz ele a sorrir.

E bandas, Fernando, como é? Os olhos deles percorrem os dos outros, eles estão debruçados no grelhador, um deles responde. "Descoberta, viemos à descoberta, aqui descobrem-se cenas, foi sempre assim - quando ouvimos coisa que nos agrade, desatamos a correr e vamos ver".

Com muita gente ociosa na tarde - ontem só houve concertos às 20 horas e foi com We Trust, que disseram que iam acabar (ler em baixo) -, uns fazem jogos, charadas, cenas engraçadas, joga-se às cartas, à bola, uns a ler ou a dormir, os afoitos metem a pele eriçada no rio frio de cristal. Como está a água, Paulo Carmona? "Está espetacular", diz ele, tem 45 anos, é do Porto, saía a tiritar do rio Coura. E depois diz a verdade: "Frio, muito frio, o rio está mais frio que a cerveja", e desaparece a tremelicar.

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