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Patti Smith deu voz ao povo no Couraíso

Patti Smith deu voz ao povo no Couraíso

"Fucking peace and love, brothers!", clamou Patti Smith diante da encosta atafulhada de Paredes de Coura, esta noite de domingo, após a interpretação rasgada de "Are you experienced", de Jimi Hendrix.

Se há alguém com autoridade para declarações às massas, e também para revolver o cancioneiro desse guitarrista imortal, que tocava melhor com os dentes que a maior parte com as mãos, é Patti Smith, "madrinha do punk", poeta laureada, ativista incansável, figura histórica da cultura do século XX e XXI. Apresentou-se em Coura de boina preta, cabelo branco a escorrer pelas faces, e uma voz e energia intocadas. Foi logo à política, abrindo o espetáculo com "People have the power", do álbum de 1988 "Dream of life", e insistiu para que as pessoas usassem a sua voz - para dar cacetada em Trump, por exemplo, elucidou a cantora nascida em 1946.

Com o público conquistado ao fim de três minutos, a norte-americana avançou para "Redondo beach", uma das canções do mítico "Horses", álbum que lançou pistas para tudo o que veio a ser o movimento punk. Com a sua voz desmaiada, que estrebucha a espaços como se fosse sacudida, Patti continuou a exortar o público, para que mudem o mundo, para que façam sabotagem às corporações. E continuou a fazer desfilar a sua música e a homenagear nomes como Lou Reed, Rolling Stones ou Midnight Oil. Os New Order têm aqui concorrência séria ao título de "reis de Coura de 2019".

Uma noite dividida

Na véspera, os dois principais concertos provocaram algumas divisões no público. Father John Misty, que encerrou a noite no anfiteatro, é um caso flagrante de "amar ou abandonar". O seu "folk rock" é inatacável, ninguém de boa-fé poderá acusá-lo de debilidades na voz - que sai límpida e totalmente amestrada em todas as modulações -, ou de insuficiências no domínio que exibe das tradições pastorais em diálogo com o rock. Todos os seus álbuns são material para o cânone dentro deste segmento. E quem abraça este segmento saiu certamente a levitar do espetáculo. Já quem tem pouca ou nenhuma relação com a sonoridade de discos como "Pure comedy" ou "God"s favourite customer", dificilmente será convertido e a probabilidade do João Pestana bater à porta é bastante alta.

Já no caso dos Spiritualized, a divisão aconteceu no seio dos devotos. Sobretudo daqueles que aguardavam pela escuta da obra-prima da banda nascida das cinzas demenciais dos Spacemen 3, "Ladies and gentlemen, we are floating in space", e especialmente da faixa-título, hino intemporal do rock projetado na galáxia. Pois o grupo de Jason Pierce, que se manteve sentado e escondido pela guedelha e pelos óculos escuros ao longo de todo o concerto, tinha outros planos para a "soirée". Algo mais espiritual, introduzindo coristas "soul" e o gospel no interior do tecido elétrico criado pelos três guitarristas que acompanhavam Pierce. O resultado foi desigual, havendo momentos em que a combinação produzia um interessante paradoxo - uma acidez açucarada -, e outros em que ambos os ingredientes perdiam o sabor.

Deixaram de lado o álbum mencionado, justamente depois de terem prometido incursões siderais com "Come together", tema que abriu o espetáculo. Mas na sua rota algo desengonçada acabaram por encontrar um rumo e terminaram em ascensão, com a encosta inteira a entoar "Oh! Happy days", hino gospel a que os Spiritualized deram contornos espaciais e que acabou por trazer algum consolo aos mais céticos.