Música

Patti Smith é a rainha do Paredes de Coura 2019

Patti Smith é a rainha do Paredes de Coura 2019

Aos 72 anos, a norte-americana conquistou os níveis mais altos de entusiasmo de todo o festival de Paredes de Coura. Suede fecharam com elegância e empatia a edição deste ano.

Patti Smith é alguém que nos dá esperança: aos 72 anos, foi capaz de assinar o concerto mais marcante da edição 2019 de Paredes de Coura, suplantando mesmo a concorrência feroz dos New Order no capítulo da reação que provocou na encosta: em mais nenhum momento houve tantos corpos a ondular, tantas gargantas a acompanhar as letras, tantas palmas quando infelizmente o espetáculo chegou ao fim.

Se houvesse condescendência, diríamos que foi "um dos momentos mais especiais do festival" e que "a senhora continua a apresentar com toda a dignidade o repertório histórico iniciado com "Horses", em 1975", mas Patti Smith dispensa qualquer tipo de caridade - o seu concerto superou as expectativas mais generosas e alcandorou-se à categoria dos "espetáculos históricos", aqueles que cumprem com distinção todos os requisitos musicais e performativos e que ainda trazem o ingrediente secreto que os torna únicos.

Esse ingrediente talvez seja o pasmo de ver alguém que percorre a estrada há quase 50 anos manter intactas todas as qualidades. A voz soa como a das gravações dos discos dos anos 1970, oscilando entre a fragilidade e a robustez, o som continua a lembrar o caminho que precedeu a eclosão do punk britânico, e o compromisso político é ainda mais declarado - em nenhum outro concerto desta edição se instigou tanto o público à revolta e à libertação. Junte-se a evocação de outros monstros como Lou Reed, Jimi Hendrix ou os Rolling Stones e somos forçados a empossá-la como "Rainha de Coura 2019".

Suede: campeões da sabedoria

Pouca sorte tiveram os Suede em atuar na mesma noite que Patti Smith, pois podiam ter sido eles os campeões da última jornada do festival. Uma grande menção honrosa é o mínimo que a banda de Brett Anderson merece. Regressados a Coura 20 anos depois, os autores de hits como "She"s in fashion" ou "Beautiful ones" mostraram toda a sua experiência e capacidade de gestão de um espetáculo, manobrando o público com destreza entre os momentos de aceleração de temas como "We are the pigs" e o recolhimento necessário para a interpretação de "By the sea".

Também na gestão da voz, que acusou desgaste em alguns agudos, Brett usou a inteligência e pediu ao público que o amparasse, conseguindo um "backing vocal" poderoso que preencheu a encosta.

Em contrapartida, atirou-se para o meio do povo, sendo literalmente engolido por "selfies" e abraços. Foi com "New generation" que terminou a história do palco principal de Coura em 2019 e os Suede estiveram à altura das solenidades.