Cultura

"Pelo meu relógio são horas de matar" para portugueses deixarem de ser serpentes

"Pelo meu relógio são horas de matar" para portugueses deixarem de ser serpentes

Mão Morta lançam, na segunda-feira, "Pelo meu relógio são horas de matar", um disco de intervenção inspirado no contexto político e social.

Ao JN, o vocalista e letrista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, explicou que o disco conta o percurso de uma personagem "que não é diferente de qualquer um de nós". É a história de alguém acomodado, "sem grandes preocupações filosóficas a nível existencial", mas que a dada altura apercebe-se de que "o seu quotidiano é interferido por acontecimentos externos que ele deixou de controlar, que não negociou e que não previu, desde piores condições de trabalho ou salários e rendimentos que, de repente, lhe são cortados".

Subitamente, a imperturbável personagem começa a inquietar-se e surge "um sentimento de partilha coletiva com o mal-estar dos outros". "Depois, é um evoluir dessa consciencialização", que desagua "na ação poética final, que é o serem horas de matar".

A temática é clara. "O contexto político, sobretudo o dos últimos dois anos, é a influência primordial deste disco", assumiu o músico. "O disco", sublinhou, "é só sobre isso". Como tal, assume que é uma obra de intervenção que conta uma história "com uma linguagem poética que é mais sensitiva do que propriamente comunicativa".

"Dá-se espaço às pessoas para de alguma forma se reencontrarem, reanalisarem ou reorganizarem e depois decidirem o que querem fazer, se aceitam o estado das coisas ou se o pretendem alterar", esclareceu.

Numa época em que é evidente uma significativa insatisfação dos portugueses face ao contexto social e político, não será estranho constatar que existe pouca música de intervenção?

"Mais estranho do que isso é não haver mais violência nas ruas contra este estado de coisas", respondeu.

"Tem um bocado a ver com os portugueses que se habituam a ser mais serpentes e a darem a volta às situações, a serem menos afrontivos", comenta.

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