Música

Robert Forster: "Prefiro a crueza ao virtuosismo"

Robert Forster: "Prefiro a crueza ao virtuosismo"

Regresso de Robert Forster ao cabo de quatro anos, "Inferno" é um dos grandes discos de 2019 até ao momento. O JN falou com o músico australiano.

Desconhecer a grandeza artística de Robert Forster, o músico australiano que se reinventou admiravelmente após a dissolução dos Go Betweens, não é pecado, mas devia sê-lo.

Nas suas canções encontramos uma elegância pop que nada tem a ver com ostentação ­- são temas que se inspiram na melhor tradição da música popular, filtrada pelo olhar experiente e lúcido de quem já anda no meio musical há 40 anos e sabe que dos Biebers e Gagas desta vida não vai rezar a História.

Depois do seminal "Songs to play", há quatro anos, eis que o compositor regressa com o não menos excelso "Inferno". Um disco sereno e prenhe de sabedoria que, apesar do título, nada tem de apocalíptico. "Quem já esteve em Brisbane sabe quão difícil é lá estar no verão. A temperatura chega com facilidade aos 40 graus... É muito difícil trabalhar nessas circunstâncias. Tudo fica mais lento e difícil", assevera por telefone a partir da sua terra natal.

Que não nos iludamos com a aparente referência bíblica. Para Forster, 61 anos, o paraíso e o inferno estão na Terra. "Não existem fora das coisas terrenas", sintetiza.

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Nos seus nove temas, "Inferno" atinge-nos em cheio com a grandeza e a miséria das vidas comuns. Dos sonhos da adolescência ao apelo irresistível das manhãs, passando pela meditação metafísica em torno do canto de um pássaro, o músico e compositor insiste em provar a cada faixa do disco que a leveza e a profundidade não têm que estar em planos opostos: "Não é preciso escrevermos sobre tragédias que vitimam dezenas de pessoas para sermos profundos. Podemos fazer um trabalho igualmente válido sem falarmos em sangue, armas e crimes. Prefiro ir por outra via", defende.


Se "Songs to play" surgiu como resposta à morte do seu grande amigo e cúmplice dos Go Betweens, Grant McLennan, desta vez não houve nenhum acontecimento de importância transcendente a rodear o disco. O ritmo de composição, esse, foi o mesmo de sempre, quase artesanal, ou não fossem as suas canções peças de filigrana. "Quatro anos é o tempo mínimo de que preciso para lançar um disco. Só escrevo duas ou três canções por ano, se correr bem", enfatiza.


Não sendo um disco de rutura face à criação recente de Forster, "Inferno" é bem mais do que a replicação de uma fórmula. Até porque por cada novo disco faz questão de rodear-se de músicos diferentes. Não necessariamente os mais dotados tecnicamente, porque a sua visão da arte é muito particular: "O virtuosismo é importante, mas sempre preferi a crueza. A força mais primitiva".

O exemplo acabado disso mesmo era a própria banda que criou, mais interessada em transpor para as canções a influência do cinema, dos livros e da televisão do que em atingir a perfeição. "Sempre achei e continuo a achar que na música as ideias são mais importantes do que os sons. É o modo como assimilamos tudo o que consumismos que faz a diferença", diz o compositor, que há quase 15 anos enveredou pela carreira paralela de jornalismo musical, através da recensão crítica. Com evidentes ganhos para a sua escrita, que se tornou "mais rigorosa e precisa" desde então, não surpreendendo, por isso, a boa receção crítica que teve a sua autobiografia.

Portugal pode não ter sido contemplado na primeira parte da digressão europeia em curso. mas alegremo-nos, porque em novembro (22 no Passos Manuel, no Porto, e a 23 no Musicbox, em Lisboa ) recebê-lo-emos com a devoção que merece. "Adoro atuar. Por mim, fazia mais digressões", diz, em jeito de despedida.

Cá o esperamos, Mr. Forster.