Cultura

"Procuram-se escritores"

"Procuram-se escritores"

"Quer publicar um romance? Um trabalho académico? Com o seu texto original e o nosso aconselhamento profissional, vamos produzir e publicar um 'best-seller'". Bem-vindos à nova face das edições de autor , área em expansão crescente.

Eça de Queiroz só publicou os primeiros livros porque o seu pai disponibilizou-lhe dinheiro para pagar à tipografia e José Saramago lançou, em 1947, "Terra do pecado" na Editorial Minerva, hoje uma editora cujos custos de publicação são normalmente assegurados pelos próprios autores. Por muito improvável que pareça agora a reedição de casos similares, a verdade é que as edições de autor com chancela - modalidade em que o autor cobre, total ou parcialmente, os custos da edição, através da compra de um número elevado de exemplares - estão a assumir-se, cada vez mais, como uma alternativa a quem acalenta há anos a esperança de publicar um livro, mas nunca obteve qualquer resposta por parte das editoras convencionais.

O recente surto de empresas a operar neste segmento é o sinal do florescimento do negócio, indiferente aos preconceitos do meio literário face a este tipo de edição. Três mil euros é a verba mínima envolvida que o autor tem por norma que pagar, mas, dependendo da tiragem e do número de páginas, os números podem facilmente atingir o dobro.

Razões mais do que suficientes para que, segundo Ângelo Rodrigues, responsável da Editorial Minerva, apareçam "firmas sem escrúpulos que estão a estragar o mercado". O director da editora lisboeta fundada em 1927 queixa-se que o modelo de edições comparticipadas pelos autores, em vigor na Minerva há quase duas décadas, "tem vindo a ser copiado de forma flagrante - nem se dando ao trabalho de alterar as vírgulas - por empresas que aparecem num ano e desaparecem no seguinte".

A forma de funcionamento destas entidades de prestação de serviços é variável: há as que estão inseridas em grupos ou editoras já existentes - como a Quasi ou a Cão Menor, que possuem as chancelas comerciais Ateliê e Novembro, respectivamente -, mas não faltam também exemplos, como a Minerva ou Folheto, que publicam no mesmo catálogo edições de autor e convencionais.

Com uma média mensal de 30 livros publicados, a Papiro - propriedade do grupo Fólio, ligado ao matutino "Primeiro de Janeiro" - é a maior empresa deste segmento. O administrador Francisco Linhares reconhece ser "um bom negócio", porque "os custos da edição estão, à partida, pagos", mas atribui a situação desafogada da empresa à "gestão profissional, muito apertada em termos financeiros".

Enquanto na Papiro "praticamente todas as edições são pagas pelos autores", a Folheto publica apenas 30% dos livros neste regime. Na percentagem restante, a editora, criada em Leiria há seis anos, tem publicado livros de figuras nacionais, como Artur Agostinho. A importância das edições comparticipadas é considerada fundamental pelo director Adélio Amaro porque "existe um conjunto de formalismos que não permite a um autor, de forma isolada, promover o seu trabalho. É para tal que existem as editoras: promover o autor e o trabalho do mesmo".

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