Espetáculo

Rocío Molina, grande estrela do flamenco, atua esta semana no Porto

Rocío Molina, grande estrela do flamenco, atua esta semana no Porto

"Não podes parar de trabalhar, porque se de repente chega um bom momento, tens de estar preparada para cavalgar a onda", começa por afirmar Rocío Molina ao JN, a dias da sua estreia no Porto.

Como quase todas as meninas andaluzas, ainda antes de aprender a ler, teve aulas de flamenco. Chamavam-lhe a "chinoquinha", pela cara redonda e os olhos pequenos, e pelo seu estereotipo de figura redonda e muito pouco cigana. Com tanto desvio ao cânone de bailarina e de flamenca, não lhe previram grande futuro. Mas ela, que não vinha de uma família artística, afirmava aos sete anos, na sua Málaga natal, que iria ser bailaora. Não numa formulação inconsequente de criança, mas em afirmação solene de quem está disposto a trabalhar por isso.

Esta é a história de Rocío Molina, a estrela internacional que passa sexta-feira, no Teatro Rivoli, no Porto, e sábado, no CAE da Figueira da Foz, com "Caída del cielo". Desde 2010, ano em que se tornou Prémio Nacional de Danza, deixando Baryshnikov ajoelhado a seus pés, em Nova Iorque, que a sua carreira não pára de subir. Em 2014, torna-se a artista associada do Theatre de Chaillôt, em França, pódio da dança contemporânea, onde estreou, em 2016, a peça que traz agora a Portugal. Só no ano de 2017, o espetáculo arrecadou três prémios Max: Melhor intérprete feminina de dança, Melhor coreografia e Melhor desenho de luz.

"É sempre bom o reconhecimento. É uma valorização pelo teu esforço. Mas chega ao fim e não mudam muitas coisas. As horas passadas dentro do estúdio vão ser as mesmas", comenta com a força telúrica que a guia.

Dançar a maternidade

Este ano, em Londres, somou ao palmarés o UK National Dance Award, para Melhor bailarina contemporânea e também o Max das Artes Cénicas com a Melhor coreografia para "Grito Pelao", um espetáculo sobre a maternidade. Rocio Molina foi mãe em dezembro, e esta é a primeira digressão após esse acontecimento pessoal. "Depois de ter tido a minha filha, ganhei outro sentido. Claro que o corpo também muda, mas penso que regressas ainda com mais força. Uma nova forma de trabalhar, porque temos de descobrir o novo corpo - e com mais sabedoria."

Como a maioria das suas obras são de caráter autobiográfico, vive com saudades do futuro. "Já estou noutro sítio, na maternidade real. E não sei se me apetece tornar a fazer algo tão explícito como "Grito Pelao", e isso terá a sua reflexão no meu baile. Anseio por começar a nova obra, que arrancará agora, durante o verão".

Muitos querem engavetar a sua linguagem no teatro ou na dança contemporânea, mas isso não a incomoda minimamente. "Sou bailaora e quero enriquecer-me com outras artes que me recebem bem. Ampliar as mentalidades e os espaços cénicos. Os puristas não têm grandes critérios. Não posso ser mais pura do que trabalhando na minha verdade. E às vezes nem eu gosto da minha verdade", comenta, entre risos.

Apesar disso, em 2009, a Cátedra de flamencologia, de Jerez de la Frontera, guardiões da tradição, atribuiu-lhe o prémio da crítica por "Oro Viejo". Em França fez este mês nove teatros seguidos. "Há públicos muito silenciosos e há os que não param de rir. Esperam algo mais canónico, mas isso pode funcionar a teu favor. Quando vão embora, estão felizes. v