Cinema

"Seria um desastre para a igreja católica se o filme fosse proibido"

"Seria um desastre para a igreja católica se o filme fosse proibido"

Depois da condenação do Cardeal de Lyon a seis meses de prisão com pena suspensa, por esconder os atos de pedofilia na sua diocese, recordamos a conversa tida no Festival de Berlim com François Ozon, que contou a história de três das mais de oitenta vítimas no comovente "Grace a Dieu". O filme estreia em Portugal no segundo semestre de 2019, distribuído pela Leopardo Filmes.

​​​​​​​Qual foi o maior desafio que teve de enfrentar ao contar esta história?

Era preciso estar à altura do combate destas pessoas, que admiro muito. Era preciso não as desapontar. Esteva muito nervoso quando lhes mostrei o filme, mas penso que ficaram emocionados ao ver a vida deles no ecrã. Disseram uma coisa que me tocou imenso. Que eu era a quarta personagem da história deles. Foi como que uma passagem de testemunho.

Lyon é uma das cidades francesas mais católicas e conservadores. Não teve problemas em filmar esta história na cidade?

Não, porque tomámos a decisão de rodar o filme com um nome de código. Se lhe tivéssemos chamado "Grace a Dieu" todos os habitantes de Lyon saberiam de que tratava o filme, porque esta frase de Barbarin tornou-se muito conhecida, foi muito comentada.

E todas as sequências no interior de igrejas e outras instituições religiosas?

Para não termos de pedir autorização à diocese de Lyon, que é dirigida pelo Cardeal Barbarin, fomos filmar todas essas cenas à Bélgica e ao Luxemburgo.

É verdade que teve problemas para estrear o filme em França?

Houve tentativas de impedir que o filme estreasse, porque o processo judicial ainda não está concluído. O advogado deles diz que há uma presunção de inocência que é necessário respeitar, porque o processo do Padre Preynart ainda não teve lugar. Só que em Janeiro já houve o processo do Cardeal Barbarin, sobre a não denúncia dos atos cometidos por Preynart. A justiça já admitiu que havia culpabilidade e ele próprio confessou.

E o facto de se tratar de um filme de ficção não conta?

Precisamente. A França é um país conhecido pelo respeito da criação artística e tratando-se de um tema de interesse geral, seria absurdo que um filme como este fosse censurado ou proibido. Mas mesmo que houvesse uma proibição, seria um desastre para a imagem da igreja católica, que já está muito deteriorada.

Espera reações diversas, em função das convicções católicas de cada um?

O que posso dizer é que desde que o tema do meu filme foi revelado, todos os países católicos compraram o filme, mesmo antes de o terem visto. Sentimos esse interesse.

Como é que a igreja católica pode renovar-se, depois de tantos casos como este?

Eu não sou político. Só coloco questões, não tenho as respostas. É verdade que a noção de perdão é muito importante na religião católica. É um tema que abordo no meu filme. O perdão pode ser libertador, mas é também uma forma de perpetuar o silêncio, fazendo com que a vítima fique encerrada no seu estatuto de vítima.

Sabe-se que já mostrou o filme aos arcebispos de Estrasburgo e Orleães. Qual foi a reação deles? Estava nervoso?

Eu não estava nervoso. Eles é que tinham de estar nervosos. Fiquei muito contente que quisessem ver o filme. Senti que havia uma grande curiosidade por parte da hierarquia católica. Mas tenho de confessar que a conversa que tive com eles não me deixa muito confiante em relação ao futuro.

Por que razão?

Sente-se que estão completamente bloqueados e desfasados da vida real das pessoas. A pedofilia foi considerada muito tempo como um pecado, como a homossexualidade e o adultério. Agora parece que estão finalmente a perceber que é mais grave. Penso que a mudança não virá de cima, mas pela base.

O que pensa do Papa Francisco?

Ele disse coisas muito fortes contra a pedofilia. Não há nada a dizer contra as suas palavras. O problema é que os seus atos não seguem o que ele diz. Não sei como é que funciona exatamente o Vaticano, mas sinto que ele não tem poder para mudar muita coisa.

Como é que pensa que possa haver uma verdadeira mudança?

Nada mudará enquanto a igreja católica for governada por esses homens de idade, completamente desfasados da realidade. É preciso que entrem para a hierarquia homens muito mais novos e talvez mesmo mulheres, e que mexam nessa instituição, que na minha opinião está completamente ultrapassada no seu funcionamento.

Qual é a sua relação com a Fé e a religião?

Tive uma educação religiosa católica. Fiz a catequese e a primeira comunhão. Mas perdi a fé muito depressa. Senti uma grande hipocrisia entre o discurso e os atos. Ao mesmo tempo que encontrava nos evangelhos coisas muito bonitas e que me tocavam, tinha a impressão que as pessoas que nos falavam disso tinham um comportamento oposto ao discurso de Jesus.

Exatamente em que altura da sua vida é que perdeu a fé?

Na mesma altura da descoberta da sexualidade. Toda a hipocrisia em relação à sexualidade perturbou-me imenso. Mas estou muito contente de ter recebido essa educação católica, porque me deu uma cultura muito importante. E deu-me o gosto pelo pecado e pela transgressão. Foi perfeito.