NOS Alive

Sete anos é uma espera longa demais para rever Ornatos

Sete anos é uma espera longa demais para rever Ornatos

"Mas esse é o encanto das coisas boas", justificou Manel Cruz, perto do fim do concerto de Ornatos Violeta no primeiro dia de NOS Alive.

O vocalista da emblemática banda do Porto quase precisou de justificar o hiato que perdurava desde 2012, tal foi a receção que o passeio marítimo de Algés lhe proporcionou: "Eu sei que isto acontece poucas vezes mas esse é o encanto das coisas boas".

O público cantou de cor do início ao fim, dançou até às filas de trás e emanou sorrisos como se não houvesse amanhã. E, no caso de Ornatos, só sabemos que o amanhã traz mais dois concertos este verão.

A conclusão a que chegamos depois de um final com Capitão Romance (sucedido por um encore com "Fim da Canção) é que a banda cresce com a ausência. O concerto começou com "Circo de Feras", em homenagem aos Xutos e Pontapés, para depois percorrer todos os temas do álbum "O Monstro Precisa de Amigos", de forma não ordenada.

O primeiro grande sucesso original foi "Ouvi Dizer", que começou repentina mas gritada de forma instantânea pelo público, mesmo nas últimas filas, abafando as incómodas conversas que sucumbiram à força do bom rock nacional. Antes do final arrebatador, houve ainda "Pára-me Agora", do álbum "Monte Elvis", que nunca chegou a ser lançado.

Seguia-se, então, o momento que todos esperavam. "Chaga" também é lançada sem pedir licença, vibrante e frenética de luzes amarelas e vermelhas, Manel Cruz já está em tronco nu, as primeiras filas saltam sem parar e um acompanhamento vocal composto por dezenas de milhares de vozes compete com a voz saída das colunas, num palco principal apinhado de nostálgicos.

Quase sem descanso, "Dia Mau" pôs tudo a dançar e mostrou, se é que era preciso, que o sucesso comercial deste monstro que não precisa de amigos, lançado em 1999, só sabe crescer à medida que o tempo passa. Só se espera que não passe tanto tempo como desta vez, mas as coisas boas são mesmo assim e esta é uma das melhores que o rock nacional já produziu.

À sombra com Linda Martini

Antes, em Linda Martini, o público foi obrigado a refugiar-se na frente do palco para desfrutar da única sombra daquele espaço. Era o sol ou os decibéis e os últimos ganharam, para gáudio da banda portuguesa que deu um set esforçado. Olhos de Mongol é um álbum que continua a fazer sucesso ("Amor combate" teve moche) mas o homónimo, sobretudo com "Gravidade" , também não lhe fica atrás. Linda Martini e Ornatos Violeta foram a certeza de que a música portuguesa está bem e nem precisa de ser recomendada. Mais do que isso, a música com guitarras também.

Trocamos a pele por Sharon Van Etten

No palco Sagres, a única brisa foi mesmo uma britânica chamada Sharon Van Etten. Estava quente naquela tenda, o calor acumulava-se e a roupa colava, mas ninguém arredou pé. A pele desgastava-se à medida que o calor avançava e a britânica não passou ao lado da circunstância. "Obrigado por estarem connosco a festejar neste calor", atira, para a rendição dos milhares. Afinal, o que é um pouco de calor quando temos à frente uma rock star que é mãe, psicóloga, atriz e versátil instrumentista de voz sublime?

A tudo isto, Sharon Van Etten junta a capacidade de protagonizar o mais rasgado e sofrido rock, mas também a mais tocante e melódica balada, como "Tarifa". Na guitarra semi-acústica ou no sintetizador, sempre acompanhada por um quarteto onde sobressai o baixo, o conjunto britânico mostra que é mais que "Seventeen", a música mais conhecida. Também é tocada e aplaudida, mas está longe de ser o clímax. Esse está guardado para o final, para a imagem do suor de Sharon a acariciar-lhe as veias sobressaídas no pescoço. O esforço foi enorme, também ela vendeu a pele.