Cultura

"Sinto-me muito cidadã do Mundo"

"Sinto-me muito cidadã do Mundo"

Actriz Cláudia Semedo é uma das principais intérpretes de "O último voo do flamingo", a adaptação do realizador João Ribeiro do romance de Mia Couto, a estrear na quinta-feira.

Temporina é uma das mulheres com quem o jovem oficial das Nações Unidas encarregado da investigação das estranhas mortes de Capacetes Azuis numa pequena vila perdida no interior de Moçambique tem de se enfrentar. Após dez anos de difícil gestação, aí está a adaptação do romance de Mia Couto, dirigida por João Ribeiro. Ao lado do italiano Carlo D'Ursi, da brasileira Adriana Alves e de vários actores moçambicanos, Cláudia Semedo é uma das protagonistas. Fomos conhecer melhor uma actriz que temos visto, sobretudo, em produções televisivas, como "Jura" ou "Podia acabar o Mundo".

A Cláudia nasceu em Oeiras, mas tem raízes africanas…

Africanas, goesas. A minha mãe é filha de portugueses, mas nasceu em Goa. O meu pai nasceu na Guiné, mas as raízes da família dele também são muito dispersas. Fui gerada lá, no calor das Africas, mas vim nascer a Oeiras.

E com Moçambique havia alguma ligação anterior?

Absolutamente nenhuma. Apenas com a literatura, através do Mia Couto. Foi o meu primeiro contacto com o país, mas nós andámos por tantos lados que já nem sei bem.

De qualquer forma, é um regresso a África. Teve algum sentimento em especial?

Sinto-me muito cidadã do Mundo. Não paro para pensar se tenho ascendência daqui ou dali. Quando vou para um país novo, identifico-me logo. Moçambique foi um processo muito especial, porque não ia de férias, ia fazer um projecto que me era muito caro. E, para um actor, fazer cinema quando há tão pouca produção é algo de especial.

Como é que decorreu o trabalho em Moçambique?

Foram três meses bastante intensos. Conheci o país de uma forma muito emocional. Já conhecia a África de Cabo Verde e de Angola. Mas Moçambique é uma África muito diferente. Gostei muito das gentes, do sítio, da paz, da calma. É estranho dizer isto agora, no momento em que o país vive estas convulsões, mas apanhei um país muito pacífico e acolhedor. Vivemos coisas muito fortes.

Há uma frase no filme em que se diz mais ou menos que quem vai a Moçambique uma vez regressa sempre… Trouxe alguma coisa de lá dentro de si?

Nesta fase da minha vida, estar três meses longe de casa, num país totalmente diferente, foi um amadurecimento muito grande. Fiz amigos muito especiais. E tenho planos para regressar. Já disse ao João Ribeiro que vou para lá trabalhar com ele. Não sei bem em quê, mas vou para lá. É um país em que parece fazer sentido fazer ali qualquer coisa.

A sua personagem é a que encarna de forma mais clara o misticismo local. Qual é a relação que tem com esse lado mais espiritual?

É uma ligação forte, mas passa apenas pelos sentidos. Pelas energias e as ligações que vou sentindo pelas pessoas. Gosto muito de ouvir histórias. E, quando cheguei a Moçambique, as mamanas, aquelas senhoras mais velhas, contaram-me histórias maravilhosas. Muitas lendas, muitos ritos. Fiquei completamente apaixonada.

Por que razão decidiu tornar-se actriz?

Acho que foi uma coisa que nasceu comigo. Era muito pequenina e já o meu avô me chamava teatrista. Fazia grandes encenações. Depois, foi trabalhar para isso. Formei-me na escola de Cascais e batalhei muito. Mandei muitos currículos, fui a muitas audições. E tive sorte, porque assim que saí da escola de teatro comecei a trabalhar. E logo no Nacional, com a Fernanda Lapa. Foi uma estreia em grande. E continuo a trabalhar.

Fazer cinema é completamente diferente do teatro e da televisão…

Já tinha tido essa experiência com um realizador francês. Fiz uma curta-metragem com uma realizadora suíça, a Jeanne Waltz. E tinha feito "O crime do padre Amaro". Mas foram coisas muito pontuais. Não acontece todos os dias, mas fazer cinema é especial. Há uma tensão muito diferente. Mas a arte de representar é sempre a mesma.

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