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Super Rock abre segundo dia com pouco público

Super Rock abre segundo dia com pouco público

Quando os Galgo ligaram as suas guitarras aguçadas às 16.45 horas, no Palco LG que é devotado às bandas de Portugal, não havia mais de 200 pessoas à frente deles.

O prado do 25.º Super Bock Super Rock, que é agora um recinto rectangular onde fulge o capim dourado do Alentejo sem sombra, mostrava em todas as direções um horizonte desolado, como se o próprio prado estivesse a ressacar.

A maioria dos espectadores que ontem encheu o recinto para suspirar com Lana Del Rey deverá estar na praia do Meco - ou está-se pura e simplesmente a borrifar para as bandas de abertura porque o dia é longo, são mais de 11 horas consecutivas de concertos, 15 bandas por cada dia, e não é humanamente possível comer e digerir tudo.

É uma pena porque os Galgo têm a receita ideal para quem ainda ontem se queixava que o festival este ano não se devia chamar Super Rock mas sim Super Pop. Quarteto clássico de rock, os Galgo, de Oeiras, apostam tudo nas guitarras fuzzy emaranhadas e no contrapeso de um órgão Roland grudento, com vozes às vezes em harmoniosa cacofonia.

O seu un verso é o dos canhões de vidro e tigres de papel, das torres de Babel e de "Quebra nuvens", o seu álbum de estreia. Mas não tiveram mais de 200 pessoas, a exata medida que cabia no pequeno semicírculo de sombra que se derramava do palco com o sol a bater de oeste por trás.

"Gondomar, Gondomar, Gondomar!"

Com o dobro de pessoas ou talvez mesmo mais, o que daria uns 500, o Conjunto Corona, que abriu o Palco EDP, é um retorcido "case study" que vale a pena seguir: é uma banda hip hop do Porto que aposta tudo no refinamento do género chunga - e no escárnio e na ironia e no mal-dizer.

Eles apresentam logo os seus argumentos a abrir: "Olá pessoal, isto é "Santa Rita lifestyle", uma música dedicada à rotunda de Ermesinde. Bora lá" - e o público responde logo a cascar e desata a gritar em coro como num comício "Gondomar, Gondomar, Gondomar!".

O que interessa é definitivamente rir. Diz o speaker/MC/DJ a carregar no sotaque: "Eu devo ser o primeiro gajo de Coimbrões que vem tocar aqui. Heh!". E a seguir lança rimas com nomes de terras: "Águas Santas, Rio Tinto, Maia/ Perdidos na variante a caminho de Gaia".

É um universo cósmico muito cómico que estriuncha com tudo e com todos, incluindo eles próprios, como se viu num segmento de rimas que andou à volta das palavras ideias, baleias e meias. As meias são, aliás, um figurino muito importante para a banda: todos eles, que são cinco em palco e macaqueiam, calçam meias brancas de ténis puxadas até às canelas e chinelos de chuveiro - um deles, o PZ, " e com PZ quem ganha é você", traz mesmo chinelos de quarto, calças de pijama e uma t-shirt que diz, e sem asteriscos, "que se f*** o bacalhau".

O povo, que parece todo doutrinado para representar a perdição, está sempre a sorrir e desata de repente a entoar outra vez "Gondomar, Gondomar, Gondomar" e depois todos cascam a rir.

São uns pândegos estes Mc"s, dois deles têm barretes de "raver4s" decadentes, ou de Ian Brown, e outro, a quem eles chamam "o homem do robe", é um verdadeiro postal com uma meia de fazer assaltos pelintras enfiada na cara e não faz mais nada a não ser fumar e dançar desengonçado - e tabaco não é o que ele está a bufar.

Foram ótimos 45 minutos de borga em que se dançou desavergonhadamente como se aquilo fosse funk e dopamina.

Hoje, 2.º dia do Super Bock Super Rock em que as estrelas são Kaytranada e a brigada francesa com Phoenix, FKJ, Christine and The Queens e "lady" Charlotte Gainsbourg, deverá ser o dia mais vazio do festival. Esperamos, evidentemente, enganar-nos na previsão.