Música e cinema

Thurston Moore mete chave de fendas na guitarra e encanta o Curtas

Thurston Moore mete chave de fendas na guitarra e encanta o Curtas

Criador dos Sonic Youth enche Teatro de Vila do Conde com banda sonora de feedback tempestuoso sobre os filmes mudos de 1940 de Maya Deren. A sala encheu e aplaudiu.

Thurston Moore, o mais importante criador da poética oblíqua da guitarra no pós-punk, autor dos hinos nervosos dos Sonic Youth desde 1981, parece uma criança grande, sempre com o mesmo corte de cabelo côncavo - agora com brancas a despontar na cabeleira loira; no dia 25 de julho ele faz 61 anos -, a mesma falta de jeito de quem quando não tem uma guitarra se sente nu e não sabe onde enfiar as mãos. Viu-se isto quando ele entrou, muito discreto, mudo e nas pontas dos pés, e quando saiu, desaparecendo de repente com uma vénia por trás da cortina do Teatro de Vila do Conde.

Foi dos programas mais entusiasmantes do 27.º Curtas, o festival de cinema que mais cresceu em Portugal e que esta quarta-feira encheu até à última fila do segundo balcão para o ver executar uma banda sonora nova sobre quatro curtas metragens a preto e branco dos anos 1940 da vanguardista Maya Deren (1917-1961).

A determinado passo já perto do fim do seu set de 60 minutos, Thurston Moore, que permanecia sempre sentado a um canto do palco para ficar fora de cena do ecrã, levantou-se e durante uns segundos tocou a sua Fender Jaguar na vertical, arrancando-lhe torvelinhos que esvoaçavam em pequenos tufões; depois virou-a ao contrário, a guitarra de pernas para o ar, e deixou que o sangue subisse à cabeça do instrumento, derramando no palco o líquido polposo do seu feedback.

É o tipo de artista que pode fazer o que quiser, Moore, mas o que fez aqui fê-lo bem feito e em trilho próprio, isto é, sem se limitar a sublinhar a ação das imagens com som, que é o que acontece na maioria das bandas sonoras, mas acrescentando outro corpo aos filmes mudos de Deren - a música é aqui uma personagem nova, ainda que essa personagem seja um vírus e ao vírus o que interessa é a contaminação - com a sua corrente contínua de feedback e eletricidade zoada.

Esteta de todas as coisas subterrâneas, o norte-americano Thurston Moore está há mais de 30 anos acampado no espaço situado entre a música experimental, a pop, o punk, o mundo das galerias e o cosmos do psicadelismo, tendo há muito estabelecido uma complexa assinatura sonora. Com os Sonic Youth, o seu revolucionário estilo de guitarra e sua peculiar entrega vocal murmurada levaram a banda a cruzar grandes extensões de ruídos entre poéticas oblíquas e hinos nervosos contemporâneos da urbanidade. Sentado no programa Stereo do 27.º Curtas com a guitarra ao colo, um mini-arquipélago de botões aos pés, duas grandes colunas Marshall a ventar nas suas costas, o guitarrista compôs em Vila do Conde, como se fosse um ourives elétrico, um fio incessante de som cheio de acordes sirénicos e tempestades, onirismo e mantras em loop, num misto de vertigem, hipnose e ansiedade que desviavam mesmo a atenção daquilo que se passava no ecrã. E pelo ecrã desfilaram "Witch"s cradle" (19439, "Meshes of the afternoon" (1943), "At land" (1944) e "Ritual in transfigured time" (1946), peças preciosas de surrealismo, experimentação e uma sensualidade - grandes planos de pés femininos, mãos, corpos em poses carnais - que em 1940 abriam a Maya Deren os gloriosos portões do avant-garde.

Quem se sentou na plateia perto do palco do Teatro de Vila do Conde viu a posição recompensada e pôde reparar numa ou noutra particularidade da ação de Thurston Moore - como quando enfiou uma lapiseira entre as cordas e o braço da guitarra para fazer "fingerpicking" ou quando sacou de uma chave de fendas e desatou a esfregar as cordas em "slide" com o protuberante metal a fazer as vezes de um arco de violoncelo sobre uma guitarra transfigurada.

Foi um belo serão, uma coisa quase romântica, numa "trip" que caminhou sempre, e vertiginosamente, em direção a um caleidoscópio de escuridão. E acabou assim de repente, estava ele com a guitarra deitada nos joelhos a fazer "slide" e a torvelinhar, e levanta-se, faz uma vénia que lhe atira o cabelo todo ao ar, agradece brevemente e desaparece sem jeito atrás da cortina como uma criança grande envergonhada que acabou de nos encantar.

O programa Stereo do 27.º Curtas, espaço programático dedicado à música e aos filmes-concerto tem esta sexta-feira (23.45 horas, sala 1 do Teatro de Vila do Conde) nova aparição com os Heliocentrics a aporem música ao filme "Heaven and earth magic", do "beatnik" Harry Everett Smith (1923-1991).

Quem estiver este sábado, 13 de julho, a sul poderá ver Thurston Moore ao vivo num concerto integrado no aniversário da sala lisboeta ZdB.