Música

Um disco que soa a gratidão por existir José Mário Branco

Um disco que soa a gratidão por existir José Mário Branco

Camané diz que daqui a 50 anos ainda vai haver gente "a ouvir e a regravar" a obra do homem que quis "desnascer" depois da revolução. Produção já se encontra no mercado

É um tributo a um dos nomes mais importantes da música popular portuguesa. "Um disco para José Mário Branco" acaba de chegar às lojas e às plataformas de streaming com 16 temas do compositor, interpretados por vários artistas de gerações e áreas musicais distintas. "Este disco é um grande obrigado de todos. Agradecemos ao José Mário Branco a inspiração e a obra", diz ao JN Rui Portulez, produtor executivo do disco.

Camané, Mão Morta e JP Simões são alguns dos artistas que voltaram ao estúdio para gravar versões do autor. Mas há também jovens que editam pela primeira vez temas do intérprete, como Primeira Dama ou Luca Argel.

DE CONCERTO A DISCO

O projeto começou a desenhar-se em 2014 quando, por altura dos 40 anos do 25 de Abril, Rui Portulez organizou "De certa maneira, um concerto para José Mário Branco", na Casa da Música, no Porto. Uns anos depois, já na Valentim de Carvalho, o produtor apresentou a proposta de um álbum de homenagem e teve luz verde da editora.

A produção que agora chega ao grande público demorou quase dois anos a fazer e inclui alguns dos artistas que passaram pelo concerto da Casa da Música, casos de Batida, Guta Naki, Ermo ou do ator João Grosso, que canta no disco um dos temas mais emblemáticos de José Mário Branco, "FMI", uma ode ao desalento do período pós-revolucionário.

Camané tinha "uns 18 anos" quando Carlos do Carmo lhe apresentou José Mário Branco. Acabaria por ser "o Zé Mário", como sempre se refere ao músico, quem produziu todos os álbuns de estúdio do fadista. Com ele aprendeu "o sentido da palavra" e descobriu o seu "ambiente musical". José Mário Branco é sobre isso: "autenticidade". "É talvez dos grandes músicos da nossa história, grande compositor, grande intérprete. Merece isto e muito mais", sublinha. No disco, Camané canta "Fado Penélope", que já tinha gravado num disco seu. De José Mário Branco diz que vamos ouvir falar por muito tempo: "Daqui a 50 anos, vai haver muita gente a querer aprender, a ouvir e a regravar. Este tipo de artista não tem tempo, é para a vida", conclui.

RIGOR ÉTICO E ESTÉTICO

Dos 16 temas do álbum, oito são inéditos. Entre eles "Queixa das almas jovens censuradas", interpretado por Luca Argel. O músico brasileiro lembra-se de ter ouvido falar pela primeira vez de José Mário Branco quando chegou ao Porto em 2012. Foi na Casa Viva, onde um concerto dado uns tempos antes, à borla, pelo compositor português, não saía das conversas de quem frequentava o espaço. "Fui à procura por causa dessa história. A minha primeira impressão foi ter pensado: "que tristeza isso não me ter chegado antes no Brasil"",descreve ao JN. Luca Argel assinala a forma "exemplar como ele combina rigor ético com rigor estético" e concorda que o disco "soa como um agradecimento" desfiando canções que "não esgotaram a mensagem que têm para transmitir".

José Mário Branco, o homem que quis "desnascer" depois de ver a revolução se "desvirginar", que fez da liberdade de ser e de se inquietar uma forma de vida, acompanhou o processo de produção do disco. Fez 77 ano a 25 de maio, um dia depois de o disco que o homenageia nos chegar aos ouvidos.