Paredes de Coura

Vacinados em Coura, a ver os elefantes

Vacinados em Coura, a ver os elefantes

Vaccines e Cage The Elephant são os mais aplaudidos da 3.ª noite. Os primeiros, sim, sacarinos, mas os segundos, rock de garagem FM, porquê?

Vaccines não é melhor do que LCD Sounsystem, mas é mais satisfatório no ato imediato, é como o açúcar ou qualquer outro rush de satisfação neuronal, prevalecerá sempre sobre tudo e sobre o tempo enquanto está a ser consumido e a deflagrar.

Quem visse a encosta de Coura no concerto dos londrinos Vaccines, vista de baixo em contra-picado, junto às grades por onde entram e saem fotógrafos acelerados - junta-se sempre ali um círculo de pessoas animadas, às vezes há shots de paparazzo a fingir, selfies e photobombs ou só cenas folionas de amigos que beberam demasiado ou fumaram imoderados alegremente e a alegria naquele momento parece sempre sem fim, o que de certa forma é verdade porque são esses os momentos que ficam fixados na memória, como que forjados a ferro, que depois mais tarde se vão rememorar - confirmava facilmente que este concerto de revivalismo pós-punk foi o mais emotivo da noite do 3.º dia. E com uma peculiaridade reactiva, porque se julgava que os Vaccines tinham mais fãs femininos do que varonis. Ideia errada: foram os homens quem mais tripou. E quem reparasse, via-os a arremessar os braços ao ar, homens desesperados, atirados ao som, a sentir cegamente a canção, a tremer da vida e dos braços, totalmente entregues àquele momento ali.

OK, podes voltar para mim

Identificaram-se três picos emocionais no espectáculo, incluindo um logo a abrir, porque eles meteram, ainda antes de aparecerem em palco, o ecrã todo vermelho vivo e o épico "intro" da "Guerra dos tronos" a soar, com a fanfarra da série de TV coberta pelo público que gritou prolongadamente "Uahh!". A encosta estava cheia, mas sem esgotar, por isso abaixo das 25 mil pessoas (ler texto acima) que fizeram Coura transbordar de Tame Impala, faz agora um ano aqui.

Num set comprido e ideal de 17 canções polvilhadas de "hits", a segunda, "Teenage icon", pôs logo o público a surfar, com meia dúzia de "crowdsurfers" da frente insubordinados no ar, pernas estrepitosas levadas pelos braços, com os surfistas galhofeiros a rabear. O segundo momento, aquele em que a memória vai mais tarde perguntar "e tu, onde é que estavas quando deu aquela?", foi antes de bater a meia-noite, com o êxito geracional de 2010 "Post break-up sex", uma canção de culpa e recriminação em que Justin Young, o vocalista, se queixa que a ex-namorada o traiu, traindo um trato assumido de protecção pós-separação.

Cheio de erupções foliculares e jorros de luz - o quinteto é uma máquina de relojoaria pop - o hino maior, mesmo a fechar, foi "If you wanna", que é sobre se a namorada quer ou não quer voltar, com o refrão pueril ( "Mas se tu queres voltar para mim, está tudo bem/ está tudo bem se tu queres voltar") repetido na encosta numa goela só. E depois, de repente, num ímpeto de luz acesa sem contar, acabou. Foi para muita gente, provavelmente, o melhor ato de sacarose ao vivo do 24.º festival Vodafone Paredes de Coura.

A elipse e o rock "boy-toy"

Antes, King Gizzard & the Lizard Wizard (o rei-goela e o ajudante do feiticeiro, que raio de nome) foram bem acolhidos - Coura é uma rocha de rock -, mas confundiram muita gente com a sua elipse de novo psicadelismo, experimentalismo e acidez. É um septeto repentista e cósmico, ás vezes furioso, três vozes, três guitarras, duas baterias tailandesas, um baixo e uma feérica flauta descabelada.

Depois deles, nome maior do cartaz de ontem, os americanos do Kentucky Cage The Elephant (enjaula o elefante) soltaram um furor diferente com o seu rock estacionado na garagem FM, cheio de baladas lânguidas e guinadas, como "Trouble on my mind", entrecortadas por energia de supremacia rock, como o hino "Mess around" que, claro, levantou "mosh" à frente e pôs mais povo a surfar empinado no ar.

Destacado no sexteto, Matt Shultz, o vocalista "boy-toy", de fraca voz, muito saltitão, e bonitão, é a estrela da companhia, seguido pelo irmão Brad que por duas vezes foi para junto do povo aparatoso só para se deixar acariciar.