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Isolamento e solidão dão retratos do país

Isolamento e solidão dão retratos do país

Centro cultural de Celorico da Beira mostra trabalho da fotógrafa portuense ceci de f "sós e isolados" já ganhou prémio internacional.

É caso para dizer que cada imagem conta uma história com gente dentro. De uma mulher de 80 anos, analfabeta e que vive sozinha numa casa sem luz e sem água canalizada.

Doente crónica, a idosa aceitou no entanto ser fotografada. Sem medo, falou até da cirurgia que esperava há mais de um ano. "Afinal não vivia só mas sim permanentemente acompanhada pelas dores que a agonizam", recordou ceci de f, a autora dos retratos que estão em exposição no centro cultural de Celorico da Beira. Até ao final do dia.

É ali que ainda será possível ver a expressão de um casal com cerca de 75 anos que passa dia após dia numa quinta do concelho de Seia, no meio da floresta, cujo acesso só se faz a pé. "Comem o que produzem e à mesa nada lhes falta", lembrou a fotógrafa que acompanhou a rotina de duas forças da natureza. Ambos trabalham a terra que lhes dá de comer enquanto o sol alimenta o pequeno painel em que carregam o telemóvel, mas passam muito tempo sem ver ninguém.

"Posso garantir que entrei e saí de muitas casas a chorar", contou ao JN ceci de f que permanece em Barcelona depois do trabalho ter sido premiado com uma bolsa, para ali fazer uma pós-graduação em fotojornalismo.

Click contra a indiferença

Os cabelos brancos e as rugas de cada rosto fotografado seriam, por si só, suficientes para identificar histórias de vida com mais de 65 anos de idade, mas ceci de f quis captar mais do que a óbvia longevidade dos intervenientes na exposição.

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Inspirada numa reportagem televisiva da SIC, visionada em 2012 e em que agentes da GNR monitorizavam idosos sós e isolados do concelho da Guarda, a fotógrafa natural do Porto decidiu seguir um guia paralelo do despovoamento no interior do país, nos concelhos de Seia, Guarda e Pinhel, para encontrar homens e mulheres entregues a si próprios. Sem família e/ou vizinhos suscetíveis de aliviar a solidão, a dor ou a mera tensão de viver com medo de intrusos mal-intencionados.

"Todos os retratos são de pessoas que vivem sós por opção ou porque não querem deixar a casa onde nasceram. Algumas construíram a habitação com muito esforço ao largo das suas vidas e é lá que pretendem continuar por temerem os lares de idosos", revelou a fotógrafa, que tenciona voltar à região da Guarda para dar continuidade à recolha de outros quotidianos.

"Estabelecendo o contacto, a partir de imagens e relatos, entre as pessoas e as instituições, espero sensibilizar a comunidade e provocar iniciativas", concluiu.

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